FLOR ENCANTADA
Say It With Flowers,1991
Bethany Campbell

Jeff Remington apostou com os amigos que marcaria
encontros com trs mulheres diferentes em um casamento.
Duas aceitaram o convite para jantar, e a
aposta estava quase vencida. Mas por que Laurie
Chase-Spenser, a fria, arrogante e esnobe florista, se
negava a sucumbir? O que estava tentando esconder?

Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

CAPTULO I

Laurie Chase-Spenser estava parada no fundo da igreja vazia, apreciando a decorao. Faltava menos de uma hora para o casamento e a expectativa crescia a cada segundo.
Uma onda de emoes ameaava domin-la, mas o orgulho e o senso do dever a mantinham firme. As flores estavam lindas.
Os arranjos haviam requerido ateno especial, mas no eram eles a causa de sua instabilidade. Sob a aparncia discreta e sria conferida pelo traje cinza, sentia-se cheia de esperana, nervoso e felicidade.
No incio daquela manh catica, descobrira que a planta mais rara que possua, a fabulosa flor dos feiticeiros, havia germinado. Passara trs anos fazendo de tudo para levar a espcie a desabrochar, e mal podia esperar para voltar  estufa.
Conhecera Diane na escola e sempre gostara dela, mas o casamento havia tomado todo seu tempo nas ltimas semanas, devorando horas de folga e ocupando seus pensamentos.
Laurie acordara s cinco da manh para preparar os arranjos. As flores frescas eram as mais lindas e delicadas que pudera conseguir, e no manteriam seu vio se fossem levadas  igreja durante a noite. Por isso preferira cuidar de tudo nas primeiras horas do dia, pouco antes da cerimnia.
O efeito compensava o cansao provocado pelo trabalho extra. Lrios e rosas amarelas enfeitavam os vasos do altar, e trepadeiras coloridas por pequenas flores do campo subiam pelos pilares, conferindo uma luminosidade encantadora  catedral.
Enviara os buqus, as flores para as lapelas, os arranjos de cabea e as cestas com ptalas de rosas para as damas de honra. Sua assistente estava em Frontenac desde o incio da manh, supervisionando a decorao para a recepo. As preocupaes e o trabalho estavam chegando ao fim. Agora, tudo o que tinha a fazer era relaxar e apreciar o casamento da amiga.
O nico espinho entre todas as flores havia sido Gertrude Hoff-mann, a av da noiva. A sra. Hoffmann insistira na necessidade de rvores florais ao p do altar para camuflar a presena do fotgrafo e do responsvel pela filmagem e Laura fora obrigada a ceder, apesar da resistncia inicial.
Contra todas as possibilidades, conseguira transformar a estranha exigncia numa pea de rara beleza.
Respirando fundo, olhou em volta e certificou-se de que tudo estava perfeito. A decorao era simplesmente encantadora, mas a nica coisa que realmente desejava nesse momento era retornar  estufa.
A flor dos feiticeiros. Se finalmente florescer... Lembrava-se de todas as lendas sobre a planta misteriosa. Estranho ter germinado justamente na manh do casamento...
De repente Laurie parou, surpresa com o toque dos lbios quentes em seu pescoo.
 Da tempo ti desidero ardentemente. Ti podrei dare un morsetto?
Passara um ano na Itlia estudando desenho, e conhecia o idioma. O que no compreendia era como algum atrevia-se a beijar seu pescoo, dizer que a desejava h muito tempo e perguntar se podia lhe dar uma mordida!
Furiosa, virou-se para encarar o desconhecido e sentiu-se ainda mais tensa ao descobrir o quanto era alto. O sujeito devia ter quase dois metros, e isso a fazia sentir-se pequena, magra e indefesa.
O rosto bronzeado havia sido barbeado com cuidado, e os cabelos escuros e encaracolados combinavam perfeitamente com os olhos negros. Era bonito, atltico, e sua aparncia contribuiu para aumentar o nervoso que a dominava. Estava habituada a conviver com homens menores, com ares mais civilizados e rostos mais suaves.
Acima de tudo, estava acostumada com homens educados, cavalheiros que no costumavam beijar o pescoo de uma desconhecida e pedir permisso para mord-la!
O sorriso provocante desapareceu dos lbios do desconhecido assim que ela virou-se, substitudo por uma mistura de espanto e contrariedade.
	Quem  voc?  ele perguntou, como se houvesse sido sabotado ou ofendido.
Laurie era tmida e retrada, e precisava tomar muito cuidado com a fala para no gaguejar nos momentos mais imprprios. Abalada como estava, teria de pronunciar cada palavra devagar, ou acabaria tropeando nelas e expondo-se ao ridculo.
Erguendo o queixo, respirou fundo e apresentou-se:
	Sou Laurentina Chase-Spenser, e estou aqui para cuidar da decorao.
Sabia que corria o risco de parecer arrogante e pomposa, mas as palavras flores e suas derivadas sempre haviam lhe dado trabalho.
	Quer dizer que  a florista?  ele insistiu, erguendo uma sobrancelha.
	Isso mesmo.
	E por que no disse de uma vez?
	Quem  voc?  Laurie perguntou com ar de desdm, certa de que no podia dar-se ao luxo de oferecer longas explicaes.
	Jeff Remington. Pensei que fosse a organizadora de casamentos, ou seja l como a chamem. Tammy. Lamento. Vamos comear novamente, est bem?
Lamentava? Pois no parecia nada arrependido.
Gostaria de dizer a ele que sua atitude havia sido deplorvel, que uma igreja era um local sagrado e merecedor de todo o respeito, mas sabia que as palavras a sufocariam. Por isso, limitou-se a fit-lo por alguns instantes antes de disparar:
	No seja ridculo.
	Voc  to formal quanto parece?
No podia mais suportar. Caminhando alguns passos, Laurie foi ajeitar um ramalhete de flores no vaso mais prximo.
Remington ajeitou uma cmerade vdeo sobre o ombro e a seguiu.
	Seu cabelo  parecido com o de Tammy. O tom castanho claro, o penteado... Qual  o nome disso? Coque? Trana?
Incapaz de responder, fingiu estar concentrada no arranjo floral que no necessitava de maiores cuidados.
	Escute, pensei que fosse Tammy, e j disse que lamento. Vamos rir disso tudo, est bem? Foi s um acidente.
A proximidade a afetava como um campo magntico, deixando-a nervosa. Por isso, fitou-o com expresso fria e caminhou at o vaso seguinte.
Ele a seguiu.
	 sempre to antiptica?
	Quer... ir... embora?
Era o que faltava! As palavras estavam enroscando-se em sua garganta como no acontecia h anos! Normalmente controlava a gagueira e poucas pessoas a notavam, mas em situaes de stress tudo ficava mais difcil.
Pressionando os lbios, obrigou-se a manter a calma e ignorar a ansiedade provocada pelo desconhecido.
Ao ouvir um zumbido, Laurie virou-se e viu que ele a filmava.
	Pare com isso!  ordenou.
	E o meu trabalho  Remington respondeu de forma lacnica, sem interromper a filmagem.
Compreendendo subitamente o que se passava, respirou fundo e gemeu.
	Oh, no! Voc  o...  Estava acontecendo. A palavra enroscara-se em sua garganta, e sabia que seria intil insistir.  Oh, no...
Jeff tocou um boto na cmera e o equipamento parou de funcionar.
	Sou o produtor de vdeo. Algum problema?
Laurie virou-se para o altar e apontou na direo das duas rvores junto aos degraus. O fotgrafo e o produtor de vdeo deveriam manter-se escondidos atrs delas, mas Jeff Remington era to alto que no caberia no esconderijo improvisado.
	Aquilo  disse.  A s... sra. Hoffmann quer que vocs se escondam atrs daquelas plantas, mas voc  muito... muito grande!
	Ela quer que eu fique ali? De jeito nenhum! Tenho um casamento para filmar, e Spurgeon precisa tirar as fotos. Nenhum de ns vai trabalhar escondido numa..', numa selva em miniatura.
	No  uma selva em miniatura! E ...  uma exigncia da sra. Hoffmann. Ela no quer que nada atraia mais ateno que a cerimnia.
	Como se eu no fosse chamar a ateno de todos escondido atrs de uma rvore, tentando encaixar a cmera no meio das flores!
	E... o que ela quer.
Tambm no gostara da idia das rvores e jamais pensaria em defend-las, mas no podia permitir que Remington provocasse uma cena dentro da igreja.
	Pode ser... o que ela quer  ela imitou-a , mas no  o que vou fazer. Spurgeon e eu precisamos de liberdade de movimentos.
Laurie mordeu o lbio, preocupada.
	Acho que ela s quer evitar que se tornem... notveis.
	Sabemos como passar despercebidos. Faz parte do nosso trabalho  e olhou para o relgio.  Vou discutir o problema com Tammy. Quero esclarecer tudo isso imediatamente! Voltarei a falar com voc mais tarde.
Ajeitando a cmera sobre o ombro, Remington virou-se e dirigiu-se  porta da igreja. Laurie o viu afastar-se com um suspiro nervoso, as mos cruzadas para conter o tremor.
No sabia se suas ltimas palavras haviam sido uma promessa ou uma ameaa, e a dvida alimentava seus temores.
Pior, temia que ele fosse aborrecer a sra. Hoffmann. E se a fizesse remover as rvores da altar?
Podia at imaginar a tenso provocada pela incidente. A sra. Hoffmann ficaria furiosa, a sra. Bauer e Diane seriam tomadas pela ansiedade, e Tammy seria pega no meio do fogo cruzado, como ela mesma.
No podia remover as rvores agora! Os primeiros convidados j estavam ocupando os bancos da catedral.
Ansiosa, uniu as mos e fechou os olhos para uma prece fervorosa.
Por favor, no o deixe criar problema. Permita que Diane tenha um casamento lindo e tranqilo... e mantenha esse homem longe de mim! Ele me deixa to nervosa, que mal posso falar!
Em seguida abriu os olhos e a beleza das flores a acalmou. Como gostaria de estar em sua floricultura, na estufa, apreciando o magnfico boto da flor dos feiticeiros!
Inquieta demais para sentar-se, foi at o saguo e verificou o arranjo colocado ao lado do livro dos convidados. Tudo estava perfeito, exatamente como planejara.
Observando a pequena multido que invadia a catedral, sorriu ao reconhecer o homem que chegava acompanhado por trs lindos garotos. Aldo Petrovelli, o marido de Sophia. Havia trabalhado com. ela num projeto em prol de crianas carentes, e a simpatia fora imediata. Sabia que Sophia havia dado  luz uma menina, mas ainda no tivera tempo para ir visit-la. Depois da cerimnia, daria os parabns ao pai e pediria que levasse seus votos de felicidade  amiga. 
Um dos pajens, um rapaz com longos cabelos loiros, aproximou-se e pediu que o ajudasse a ajeitar a flor na lapela. J percebera que ele a observava com insistncia, mas homens mais jovens raramente a deixavam nervosa.
	Eu sou Vinnie  ele apresentou-se.  E voc  Laurie, amiga de minha irm Sophia.
	Sim, eu sou Laurie. Conheo sua irm, e soube que ela teve uma menina.
	E eu soube que voc andou discutindo com o produtor de vdeo. Ele a confundiu com Tammy Farentino, no?
	Foi apenas um incidente bobo.
	Cuidado com ele. Nenhuma mulher est segura perto daquele sujeito. Se fosse voc, ficaria bem longe dele.
	No devia estar recebendo os convidados?  ela riu.  Trate de ir para a porta!
Tammy Farentino caminhava em sua direo, e os passos apressados traam sua ansiedade. Bonita, vrios centmetros mais baixa que Laurie e dona de curvas perfeitas, Tammy atraa todos os olhares por onde passava. Os cabelos castanhos eram quase da mesma cor dos da florista, mas os olhos azuis eram absolutamente diferentes dos dela, cinzentos e sonhadores.
Como ele pudera confundir-me com ela? A lembrana dos lbios em seu pescoo ainda provocava um calor inesperado e incmodo. Tammy era o tipo de mulher com quem Jeff Remington combinava; glamourosa, segura e confiante.
Puxando-a de lado, a organizadora respirou fundo e sussurrou:
	Tivemos um pequeno problema com as rvores. O fotgrafo reclamou, e o produtor de vdeo tambm decidiu me atormentar por causa do tal esconderijo. Levei Jeff Remington para conversar com a sra. Hoffmann, porque com todo aquele charme...
Laurie fitou-a surpresa. Charmoso no era uma palavra que usaria para descrev-lo. Presunoso, sim; explosivo e voluntarioso, mas... charme? Tammy sorriu.
	Acredite em mim. Conheci o sujeito esta manh, e sei que ele pode convencer qualquer um com todo aquele charme.
Que diabos Remington fazia? Saa pela cidade beijando todos os pescoos e orelhas? Era assim que pretendia lidar com Gertrude Hoffmann?
	De qualquer forma  Tammy prosseguiu com um sorriso satisfeito , ele a fez compreender que cinegrafistas e fotgrafos precisam de liberdade de movimentos. Remington queria que as rvores fossem retiradas, mas ento usei meu charme o fiz mudar de idia. As plantas ficam onde esto, o cinegrafista vai onde achar melhor, e tudo o que temos a fazer  esperar que o padre case esses dois de uma vez. A propsito, todos esto elogiando a decorao. Parabns pelo trabalho, querida. E agora, se me der licena, vou ver se Diane conseguiu ajeitar o vu.
Tammy partiu, deixando no ar uma esteira de perfume caro e adocicado.
Laurie pensou em aproveitar para sair e respirar um pouco de ar fresco, mas Vinnie aproximou-se antes que pudesse dar o primeiro passo.
	Em que est pensando? Isso  um casamento! Devia estar feliz  e ofereceu o brao num gesto de cavalheirismo.  Venha, vou acompanh-la at seu lugar.
Sem outra alternativa, Laurie aceitou o brao e deixou-se levar para o interior da catedral.
	Afinal, em que estava pensando? Em mim, talvez?
	Estava pensando numa planta  Laurie sorriu.  Tenho uma espcie rara, e esta manh percebi que ela comeou a germinar. Acho que vai florescer.
	Ah, por favor! Ningum fica to srio por causa de uma planta. Se no era em mim, em quem estava pensando?
	Na planta  ela insistiu, sentando-se no banco reservado aos amigos mais afastados.
Ao olhar para o altar, viu que Jeff colocara-se em uma das laterais e percebeu que a observava. Um sorriso sutil desenhou-se em seus lbios, provocando uma emoo incmoda que no compreendia, e que no queria identificar. Inquieta, desviou os olhos dos dele.
Pense nas flores. Pense na estufa, na flor dos feiticeiros...
Mas os arrepios a perturbaram durante toda a cerimnia, como que provocados pelas ptalas de uma rosa, ou por um beijo suave.
Mais tarde, depois de passar quase vinte minutos na fila dos cumprimentos, Laurie finalmente conseguiu abraar a noiva.
	As flores esto lindas  Diane comentou.  Voc  um gnio!
	E voc  a noiva mais linda que j vi.
	Mesmo com essa montanha de arroz nos cabelos?
Laurie riu e seguiu em frente, deixando que outras pessoas cumprimentassem os noivos. Ela e a assistente haviam passado metade da noite preparando as pequenas embalagens com arroz que seriam distribuda logo aps a cerimnia, delicadas bolsas de tule com fitas de cetim e flores do campo. Felizmente havia acabado, e tudo sara absolutamente perfeito. Mavis Jefferson, sua assistente, terminara de arrumar os arranjos nas mesas e desaparecera, como uma boa fada cuja misso est cumprida.
Um garom parou para lhe oferecer champanhe e, de posse de uma taa, Laurie caminhou pelo jardim acenando e sorrindo para velhos amigos e conhecidos.
	Voc  a sensao da festa  uma voz profunda murmurou s suas costas.
Assustada, virou-se e deparou-se mais uma vez com o inquietante cinegrafista dos olhos negros e profundos.
	Eu... no esperava encontr-lo aqui.
	Tambm no pensei que viesse.  amiga da noiva?
	Sim. E voc?
	Amigo do noivo. Estudamos juntos quando ainda usvamos calas curtas  sorriu. Encabulada, Laurie no foi capaz de retribuir o sorriso.  O vdeo  meu presente de casamento. Voc e Diane so amigas ntimas?
Gostaria que o corao parasse de bater to depressa.
	Ns... estudamos juntas no ginsio.
	Ah... Numa escola exclusiva, imagino. Inacessvel aos simples mortais, como ns.
Agora conclua que era rica, s porque conhecia Diane! Sua famlia era tradicional e respeitada em St. Louis, mas em matria de dinheiro, tinham apenas o suficiente para levar uma vida confortvel.
	Era s uma escola  respondeu, sempre tomando cuidado para no gaguejar.
	Ainda est agindo como se preferisse no falar comigo. Ficou to furiosa assim com aquele... incidente?
Certa de que o assunto a deixaria ainda mais nervosa, Laurie virou-se e fingiu apreciar a beleza do jardim dos Bauer.
	Escute, no quero que fique aborrecida  ele insistiu.  Sei que a perturbei num momento em que devia estar compenetrada no trabalho, e quero que me desculpe pelo comportamento estranho e temperamental. Tambm fico ansioso quando estou trabalhando.
Remington tinha razo. Para eles, o casamento no era simplesmente uma ocasio social, e isso os deixara irritados e tensos. Prestavam um trabalho para dois grandes amigos, e isso os fizera sentir a presso de maneira ainda mais intensa.
	Se disser que estou perdoado e que podemos ser amigos...
Laurie respirou fundo e preparou-se para responder, mas uma das damas de honra aproximou-se, pendurou-.se no brao dele e suspirou com ar dramtico. Laurie conhecia Suzanne Carrington do ginsio, e ainda lembrava-se de como sua beleza e vivacidade a tomaram popular.
	Pensei que a fila dos cumprimentos fosse dar a volta no quarteiro  ela riu. Voc prometeu fazer uma cpia do filme para mim, lembra-se? Quero mand-la para minha av, em Cincinnati. O que acha de tomarmos uma taa de champanhe? Ah, ol, Laurie. As flores estavam lindas.
	Era o que eu estava dizendo a ela...
	Oh, Jeff  Suzanne o interrompeu  , l est o garom. Por favor, estou morrendo por um drinque. Pode me acompanhar at a mesa dos canaps? No como nada desde o caf da manh!
Com um sorriso distrado, Jeff afirmou com a cabea e cravou os olhos em Laurie.
	Nos vemos mais tarde  disse.
Ao v-la sozinha, Vinnie aproximou-se e comentou:
	Aquele cara  mesmo insistente. Acho que vou ficar de olho em minhas irms.
	No seja to p... protetor.
	Estou falando srio, Laurie. Meu irmo conhece Jeff Reming-ton h anos. Ele  um grande amigo, mas... mas no merece a confiana de uma mulher. Se no acredita em mim, oua a opinio de outra pessoa  e acenou para o cunhado.  Aldo!
Sorridente, Aldo Petrovelli aproximou-se e cumprimentou-a, agradecendo ao receber os cumprimentos pela filha recm-nascida.
	Aldo, meu amigo... Jeff Remington anda perseguindo esta jovem. Acha que ela pode confiar no sujeito?
	Vinnie, prefiro ficar fora isso, est bem?  ele respondeu, subitamente srio.  Tudo o que posso dizer  que... Bem, tenha cuidado com Remington. Muito cuidado. Estive no hospital esta manh, e Sophia me pediu para lhe entregar este bilhete  e tirou um Pedao de papel do bolso do palet.
Perplexa, Laurie abriu-o e leu a breve mensagem: Laurie, tome cuidado com o homem alto com a cmera de vdeo. Muito cuidado! Um beijo carinhoso, Sophia.
	Est vendo? At minha irm mais velha sabe que o cara no  digno de confiana  Vinnie insistiu.
	Afinal, qual  o problema com Jeff Remington  Laurie perguntou assustada, sentindo que o assunto era mais srio do que imaginara.
mas Vinnie estava satisfeito com a expresso aflita em seu rosto, e Aldo parecia to angustiado, que seria intil pression-lo em busca de maiores informaes.

CAPTULO II

	Preferia ter ficado fora disso  Aldo comentou com Vinnie.  Gosto de Jeff, e acho que o que fiz no foi muito digno.
Estavam ao lado da mesa de canaps, e Vinnie deliciava-se com as variadas opes.
	Pois eu acho que h mais de um significado para a palavra dignidade. A vida  complicada, Aldo.
	No sei como Jeff se meteu em algo to absurdo.
	Ei, aquilo era uma festa! Todos estavam altos...
	Isso eu entendo. O que no sei  por que nos envolvemos na encrenca.
	Porque Laurie  amiga de minha irm que, por sinal,  sua esposa.
	Elas so apenas conhecidas.
	Bem, Sophia gosta dela, e voc ouviu o que ela disse quando telefonou para casa esta manh. Estava furiosa!
	Eu sei, eu sei... No devia ter comentado nada com ela, Vinnie.
	A histria era divertida, e pensei que faria bem se ela pudesse rir um pouco naquele hospital.
	Vinte pessoas na sala, e voc foi atender ao telefone. Voc... Boca Grande!
Vinnie encolheu os ombros.
	Bem, Sophia disse que algum devia impedir que isso fosse at o fim, e acho que ela estava certa.
	Ela mandou um bilhete, e eu o entreguei. Gostaria de no ter me envolvido, realmente  Aldo lamentou-se.  Esta manh, quando falou mais do que devia, passou quase meia hora tentando convencer Sophia de que tudo no passava de uma brincadeira masculina. Quando decidiu bancar o heri?
	Quando a conheci. Sophia disse que Laurie  uma pessoa muito sensvel e tmida. Ela se mostrou formal e fria, mas... Ah, no sei! H algo naquele rosto que... Aquela jovem no devia fazer parte de uma brincadeira de mau gosto. Ela  real, e tem sentimentos que tambm so reais.
	Espere um minuto! Esse ar galante...  sua velha obsesso por mulheres mais velhas! Est apaixonado outra vez?
	Um pouco  Vinnie admitiu. Apaixonava-se  cada meia hora, e sabia que seria intil negar algo que toda a famlia conhecia.  Ela  bonita, e gosto da maneira como fala. E engraadinho. Quero dizer, h muitas mulheres bonitas aqui, mas ela ... diferente.
Aldo respirou fundo, lamentando por Vinnie no ter nascido com mais descrio e menos hormnios. Mas o cunhado estava certo. Havia algo de vulnervel nos olhos da florista.
Quando Vinnie contara o que sabia  irm, ela ficara furiosa e falara sobre a gagueira de Laurie. O problema a fazia parecer fria e distante, mas a impresso era errada.
Laurie confiara em Sophia e contara sobre seu distrbio num gesto de bondade, percebendo que a amiga andava preocupada com um dos filhos, que tambm gaguejava. No permitira que algum a magoasse com uma brincadeira insensata e egosta!
Algo tentara manter-se afastado da questo, mas a esposa o fizera prometer que levaria o bilhete e o entregaria a Laurie.
Droga! Jeff Remington era um bom rapaz... que devia ter pensando duas vezes antes de se meter nessa encrenca.
Jeff Remington gostaria de no ter se envolvido nessa confuso. Havia sido uma idia tola e absurda, mas era tarde demais para voltar atrs. Seu amigo Gary Castiglione possua um Mustang 1968 em perfeito estado de conservao, e podia perder o carro nessa aposta. Portanto, a brincadeira passara a ser sria.
Tudo comeara na noite anterior ao casamento, na despedida de solteiro de Nick Granatelli. Muita bebida, vrias piadas... e de repente a aposta havia sido feita.
Steve Bostwick, um dos pajens, provocara Jeff por ainda ser solteiro e o desafiara a provar que podia conquistar qualquer mulher.
Gary tomara a defesa de Jeff e decidira apostar na capacidade do velho amigo de faculdade.
Entusiasmado com a grande quantidade de lcool que havia ingerido, Remington pronunciara-se capaz de conquistar quem quer que fosse e os deixara at escolher a mulher em questo.
Mas Gary havia bebido ainda mais e, demonstrando a imensa confiana depositada no amigo, sugerira que ele conquistasse logo trs garotas!
Encarando a aposta como uma brincadeira inocente, Jeff havia concordado.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa para impedir, Gary havia apostado seu carro, o automvel que amava acima de tudo e no qual enterrara todas as economias.
Animado com a possibilidade de ganhar um Mustang, Steve apressara-se a escolher as trs mulheres.
Agora, depois de guardar a cmera no porta-malas do carro, Jeff saboreava um copo de vinho num canto mais isolado do jardim, tentando aproveitar os momentos de solido para coordenar as idias.
Suzanne, a dama de honra, havia sido surpreendentemente fcil. Jantariam juntos na noite seguinte, mas no conseguia sentir-se animado com a conquista. Suzanne era bonita, mas falava demais e sempre o deixava nervoso.
Felizmente era uma das mais requisitadas da festa, e passava a maior parte do tempo na pista de dana.
Tammy Farentino teria sido mais difcil mas, por sorte, Gary Castiglione sabia algumas coisas a seu respeito, e as informaes foram extremamente inteis. Embora fosse reservada, Tammy no resistia a uma abordagem audaciosa e a palavras sensuais murmuradas em italiano.
Depois de sussurrar todas as bobagens que sabia pronunciar no idioma de amore e gastar os dentes mordendo seu pescoo, Jeff a levaria para jantar na segunda-feira.
Apenas Laurentia Chase-Spenser insistia criar dificuldades, justamente a menos sensual das trs.
Suspeitava de que Steve a inclura na lista por causa de suas maneiras frias e antipticas. Tinha aquela maneira irritante e deliberada de falar, pronunciando cada palavra como se estivesse dando uma aula, e isso o incomodava.
Laurie no era feia. Na verdade, tinha de admitir que, quanto mais a observava, mais bonina ela parecia. Havia algo profundo naqueles olhos cinzentos e sonhadores, quase envergonhados e totalmente estranhos  sua altivez.
Agora ela danava com Salvatore, um dos tios de Nick, e sorria para ele. Engraado, seu sorriso tambm era tmido. No agia de maneira esnobe com Salvatore.
Tinha de reconhecer que a primeira tentativa de aproximao havia sido um fracasso, e o esforo de reconciliao fora sabotado por Suzanne. Desde ento, sua Majestade Laurentia simplesmente o ignorava. Pois bem, j era hora de tentar um segundo assalto.
Com um suspiro, atravessou o jardim e foi at a pista de dana, onde bateu no ombro de Salvatore e interrompeu a valsa. Ah, os sacrifcios que um homem faz pelos amigos!
Laurie era alta, e encaixava-se em seus braos muito melhor que Suzanne ou Tammy.
	Parece que nos encontramos novamente  Jeff comentou com um sorriso.
Laurie no respondeu e virou-se, evitando encar-lo. Apesar da irritao provocada por sua arrogncia, Remington sorriu e insistiu:
	E ento? Estou perdoado?
	No h nada... a ser perdoado.
	Ento, por que age como se no quisesse falar comigo?
	No h nada... a ser dito.
	Devo cham-la de srta. Chase-Spenser, ou Laurentia?
	Laurie  ela respondeu com um suspiro exasperado.
Jamais conhecera uma mulher to arrogante! Numa tentativa de sesperada de vencer a barreira, Jeff decidiu mentir.
	Admiro seu talento com as flores. Fui contratado para fazer um trabalho para a secretaria de turismo na prxima semana, uma filmagem de cinco minutos no Jardim Botnico, mas no sei nada sobre o assunto. Se pudesse ir comigo e me ajudar um pouco, ficaria encantado em lhe pagar um jantar.
Na verdade, teria mesmo de filmar o jardim Botnico para a secretaria de turismo, mas s por trinta segundos, e no precisava de conselhos tcnicos.
Laurie ergueu o queixo e respondeu com ar distante:
	Tenho certeza... de que o lugar possui especialistas... para ajud-lo.
	Mas... tambm preciso fotografar aquele lugar chamado Porta-Jias, e apreciaria poder contar com algum que me ensinasse a distinguir o comum do extraordinrio. E depois terei de filmar o Tower Grove Park, mas a nica coisa que sei  que trata-se de um jardim especial.
	 um parque... construdo de acordo com os moldes de um jardim ingls. Vitoriano.
Era to orgulhosa, to arrogante, que no sabia se queria apertar seu pescoo ou beijar seus lbios. Qualquer coisa, desde que a obrigasse a agir como uma pessoa normal, de carne e osso.
	Eu no sabia. Sou incapaz de distinguir uma tulipa de um
gernio. Podia me ajudar... e colaborar com a secretaria de turismo.
Laurie abriu a boca como se fosse dar alguma explicao elaborada e detalhada, mas em seguida fitou-o e disse:
	No.
A finalidade e a deciso com que se colocava o enfurecia!
	No?  s isso que tem a dizer? No vai nem tentar inventar
uma boa desculpa?
Haviam parado de danar, mas Jeff ainda a mantinha entre os braos, embora ela estivesse rgida como uma esttua.
	No.
	E se eu no aceitar um no como resposta?
Laurie sorriu, empurrou-o delicadamente e, sem uma nica palavra, afastou-se.
Jeff a seguiu com os olhos e sentiu que a raiva alimentava sua determinao. Por isso Steve a inclura na lista! Era fria como um bloco de gelo!
E no entanto, era to desejvel que o sangue fervia em suas veias. Embora no fosse exatamente linda, possua uma graa e uma elegncia capazes de despertar os apetites mais inconfessveis num homem. E apesar da arrogncia, demonstrava uma vulnerabilidade que o confundia, aguando sua curiosidade.
E como se no bastasse, o Mustang de Gary estava em jogo, e no podia permitir que ele o perdesse.
Laurie estava na estufa, admirando a flor dos feiticeiros. Era uma planta feia, sem encantos e grande demais para ser graciosa, mas a nova formao no caule a tornava subitamente interessante.
O boto.
Se a flor dos feiticeiros desabrochasse, entraria para a histria da horticultura americana e teria a oportunidade de presenciar um dos mais belos espetculos da natureza. A flor era nica, e por isso tantas lendas haviam sido criadas a seu respeito.
Olhando para o relgio, percebeu que passara mais de uma hora na estufa e decidiu ir para casa.
Relutante, abandonou o ambiente de paz e sossego que tanto adorava. O aroma da terra molhada e da vegetao a acalmaram, proporcionando a tranqilidade de que precisava depois das emoes intensas provocadas pelo encontro com Jeff Remington. Por que Vinnie, Aldo e Sophia haviam insistido tanto em preveni-la contra o sujeito? E por que ele a perturbava tanto?
Como se j no houvesse suportado o bastante, ainda teria de lidar com a prima Shirley, que hospedara-se em sua casa por um ou dois dias a caminho de St. Joseph, onde visitaria os pais. Professora de msica, Shirley era uma mulher de opinio, falante e impositiva, exatamente o tipo de visitante que perturbava a paz domstica e a irritava.
Quando entrou em sua pequena residncia no subrbio, Laurie encontrou-a no sof da sala, descala, usando uma cala jeans, uma camiseta larga e mantendo uma toalha amarela em torno dos cabelos recm-lavados.
	J no era sem tempo!  Shirley exclamou ao v-la.  Fiquei to faminta, que comi toda a pizza que estava no freezer. Como foi o casamento?
	Conforme o planejado, felizmente  Laurie respondeu, tirando os sapatos antes de ir at a cozinha e servir-se de um copo de suco de laranja.
	Um sujeito chamado Jeff telefonou para voc. Ele parecia... interessante. Disse que voltaria a ligar mais tarde.
	Quem...? Jeff?
	Sim, e... Ei, qual  o problema?
	N... nenhum.
	Est gaguejando, e isso  sinal de que algo a perturbou. O que foi?
	Eu c... conheci esse homem no c... casamento, e as pessoas me disseram que devo tomar c... cuidado com ele.
	Caramba! H anos no gagueja desse jeito!
	Foi um dia cansativo.
	Posso imaginar. Afinal, quem  esse sujeito?
	 O nome dele  Jeff Remington, um produtor de vdeo.
	O qu? Oh, no... Por acaso  um cara alto... muito alto, moreno e bonito?
	Voc o conhece?
	Conheo. Produtor de vdeo, ? Faz sentido. Ouvi dizer que ele foi fazer um curso de cinema na Califrnia depois da faculdade. Ento voltou  cidade... Sabe se veio para ficar?
	No tenho idia  Laurie respondeu, estranhando o comportamento da prima.  Como o conheceu?
	Eu o conheci porque ele  um canalha!
	Um... canalha?
	Exatamente. Um cafajeste, cretino, mentiroso e mau carter! Ele acabou com a vida da pobre Mary Ellen Pfieffer.
	Quem  Mary Ellen Pfieffer?  perguntou, realmente confusa. Talvez estivesse prestes a descobrir o grande segredo, o escndalo do qual suspeitava.
	Mary Ellen Pfieffer era uma das mais brilhantes alunas de msica em toda a histria da Universidade de St. Louis. Ela era minha irmzinha... sabe como escolhem uma aluna mais velha para cuidar de uma caloura, no? Pois eu fui encarregada de cuidar de Mary Ellen, at que Jeff Remington destruiu a vida da coitadinha.
	Como? Do que est falando? O que ele fez?  Laurie disparou, aflita e horrorizada.
	Ah, ele fez o que sempre faz com as mulheres. Convidou-a para sair, iludiu-a e depois a abandonou. Mary Ellen era uma garota doce, inocente e sensvel, e amava-o de verdade. Ficou to decepcionada e deprimida, que abandonou a escola e desistiu de tudo que havia perseguido at ento.
	Que coisa horrvel!
	Foi o pior semestre de minha vida! Tudo o que Mary Ellen fazia era chorar, chorar e chorar. Sentava-se em sua mesa e chorava, ou ia ao meu quarto e chorava. E Remington simplesmente negava-se a falar com ela! Finalmente decidi fazer alguma coisa e fui procur-lo. Depois de algum tempo, ele tambm se recusou a falar comigo. Por que ia se preocupar com um pobre garota desiludida?
Laurie balanou a cabea num gesto de solidariedade e compreenso.
	Mary Ellen foi para casa, mas os pais ameaaram obrig-la a voltar para a Universidade. Ento ela fugiu para Chicago e, p0r ainda estar ferida e carente, envolveu-se com aquele sujeito horroroso, cheio de brincos e tatuagens. J no se importava com a prpria vida, e pensava que, sem Jeff, tudo chegara ao fim. Longe dele, Mary Ellen considerava-se morta.
	Que horror!
O telefone tocou e, furiosa, Shirley levantou-se de um salto.
	Quer que eu atenda? Se for ele...
	Eu cuido disso  Laurie indicou com tom firme, aproximando-se do aparelho.  Al?
	Laurie? Aqui  Jeff. Estou muito perturbado com o que houve entre ns e... Bem, acho que teve uma pssima impresso a meu respeito. Gostaria de mostrar que no sou to ruim. Se me der uma chance...
	Gostaria muito... que no telefonasse mais para minha casa.
	Mas...
Laurie j havia desligado.
	Foi a coisa mais sensata que podia ter feito  Shirley aprovou.  E por que ele a est perseguindo, se sempre preferiu deixar que as mulheres o perseguissem? No estou gostando disso...
Lembrando-se de como havia sido estar nos braos dele e mover-se lentamente ao ritmo da melodia, Laurie teve de admitir que tambm no gostava do que sentia.
Bobagem! Construra uma vida segura, bem organizada e pacata, e no o deixaria perturbar sua paz de esprito!

CAPTULO III

No dia seguinte ele voltou a telefonar, e Laurie desligou novamente. No final da tarde Shirley arrumou as malas e seguiu para a casa dos pais em St. Joseph.
No momento em que Laurie entrou em casa, depois de despedir-se da prima, o telefone tocou mais uma vez.
	Al?  ela atendeu hesitante e apreensiva.
	No desligue. S estou pedindo uma chance, Laurie. Sei que dei uma pssima impresso...
	J... disse para... no telefonar.
	Por favor, vamos tomar um caf e conversar, mais nada!
	No.
Desta vez, alm de desligar, Laurie tirou o aparelho da tomada para no ter de lidar com Remington novamente. Enquanto vestia-se para ir  floricultura, fitou-se no espelho e notou que os olhos estavam cheios de incerteza e soube que Jeff havia provocado o sentimento.
Quando criana, a gagueira sempre a perturbara intensamente. Seu pai era transferido com freqncia, o que a obrigava a ir de uma escola para outra sem ter tempo de adaptar-se. Incapaz de enfrentar o problema, lidava com ele da maneira mais simples possvel: no falava com ningum, a menos que fosse indispensvel.
Os pais divorciaram-se pouco depois de seu aniversrio de dezesseis anos, e sua me havia voltado para St. Louis, obrigando-a a mudar de escola mais uma vez. Apesar do trabalho bem sucedido com diversos fonoaudilogos, ainda temia gaguejar, e por isso tomava o cuidado de falar pausadamente e respirando com regularidade, o que fazia com que as pessoas a julgassem afetada e esnobe. Por isso, preferia permanecer em silncio e contentar-se com algumas poucas amigas, como Diane.
S conseguira aceitar o problema na faculdade, quando passara a no dar importncia ao julgamento que os outros faziam dela. Se preferiam consider-la antiptica porque falava devagar... no precisava deixar-se abalar por isso.
Era feiiz com seu trabalho, com a famlia e os poucos amigos que conquistara. O trabalho sempre viera em primeiro lugar. Na escola, fugia atravs dos estudos e mais tarde, j formada, passara a usar a carreira como vlvula de escape. Sendo assim, jamais havia sobrado muito tempo para os homens.
Ao ligar o motor da caminhonete, pensou nos poucos que conhecera e reconheceu uma espcie de uniformidade entre eles. Eram todos pacatos, civilizados, polidos e aborrecidos. Tudo neles parecia mediano; a altura, o peso, a aparncia, a inteligncia e a personalidade.
E tambm haviam existido os mais jovens, como Vinnie. Embora no sentisse atrao por garotos, sentia-se  vontade com eles.
Jeff Remington era outra histria. No era mediano, civilizado ou polido, e certamente no era aborrecido, embora fosse irritante. Sabia que era perigoso, e a fascinao que exercia sobre ela o tornava ainda mais ameaador.
Tinha de parar de pensar nesse homem, ou acabaria perdendo o pouco de paz que ainda lhe restava. Na verdade, esperava nunca mais v-lo.
Mas o viu no dia seguinte, uma segunda-feira atarefada e catica. Ao ouvir o ranger da porta, levantou os olhos da mesa de trabalho certa de que Rodney, o entregador, voltara para apanhar novas encomendas, e foi incapaz de impedir o choque ao ver Jeff Remington invadindo seu osis de segurana.
	Quero comprar uma flor  ele disse.
Era to alto, que teve de inclinar a cabea para no bater nos vasos de samambaias que pendiam do teto.
	O q... que vai querer?  Laurie perguntou perturbada, afas
tando uma mecha de cabelos que caa sobre sua testa.
Apoiando os cotovelos sobre o balco para fit-la nos olhos, Jeff sorriu e o brilho repentino em seu rosto teve o poder de aturdi-la.
	J disse que quero comprar uma flor. Qual delas prefere?
	O qu?  sussurrou confusa, sentindo o corao bater mais depressa. Havia acabado de cortar o caule de um lrio, mas o choque
fizera esquecer de coloc-lo no vaso.
	Chegue mais perto  ele ordenou, inclinando o pescoo de forma que os olhos ficassem no mesmo nvel dos dela.  Qual delas prefere?
	Acho... que a questo ... que flor voc prefere?
	No. Estou tentando fazer uma oferta de paz. Qual  seu maior desejo? Uma rosa? Uma orqudea?
Laurie fitou-o exasperada, temendo que ele pudesse ouvir as batidas de seu corao.
	Meu maior desejo...  que me deixe em paz.
	Infelizmente no posso. Dizem que existe uma linguagem das flores. O que se deve comprar para pedir mais uma chance?
Laurie virou-se, sentindo que os olhos negros e profundos tinham o poder de destruir seu bom senso e aniquilar sua fora de vontade.
	Eu... no sei. Um... um... junquilho, talvez.
	timo! Vou querer um junquilho, ento. No! Uma dzia. Duas dzias de junquilhos.
Tentando escapar do poder daquela voz, Laurie saiu de trs do balco e dirigiu-se  porta da estufa.
	Lamento, mas os... junquilhos no florescem nesta poca do
ano. Vou chamar algum para atend-lo.
Rpido, ele a segurou pelo brao e contornou o balco para bloquear o caminho. Embora o toque fosse gentil, o calor espalhava-se por seu corpo como um incndio, e o peito amplo a centmetros de seu rosto a fazia sentir-se encurralada e indefesa.
	P... por favor...
Em silncio, Jeff segurou seu queixo entre os dedos e a fez encar-lo, inclinando a cabea lentamente sem desviar os olhos dos dela.
	Eu  quem devo pedir  murmurou.  Por favor, fale comigo. Por favor, no fuja de mim. Eu nunca tive a inteno de faz-la
sentir-se to mal...
Parecia sincero, e por um momento Laurie hesitou. Embora quisesse afastar os olhos dos dele e estivesse livre para virar-se, fitou-o Por mais alguns instantes e mergulhou naqueles poos negros e profundos.
	Laurie, por favor!
Estava aproximando-se devagar, e a mo que antes a segurava pelo brao agora apoiava-se em sua cintura, puxando-a para mais perto.
Ele vai me beijar. E eu no vou tentar impedir!
Tinha de resistir. Havia sido prevenida sobre os perigos que Jeff Remington representava, e no podia atirar-se ao fogo sem ao menos tentar escapar.
Rpida, escapou do brao que a enlaava e correu para a estufa.
	V... embora!  gritou, antes de bater a porta com violncia. Mavis cuidava de algumas trepadeiras e fitou-a com ar assustado:
	O que aconteceu?
	N... nada. H um homem l fora. Veja o que ele quer, e depois livre-se dele, por favor.
Limpando as mos no avental, a assistente, dirigiu-se  frente da loja e Laurie ficou sozinha, o rosto apoiado contra o vidro morno e o corao disparado.
Fechando os olhos, respirou fundo e deixou que o aroma da terra e das flores a acalmasse, como sempre acontecia. Quando voltou a abri-los, notou que o boto da flor dos feiticeiros crescera.
Jeff estava sentado em uma das ilhas de edio, olhando para as trs telas e tentando coordenar as cenas para m novo comercial.
A msica, um tema que algum havia indicado por ser vibrante e cheio de energia, ecoava em seus ouvidos atravs dos fones como um tambor ritual.
Passara a ltima meia hora com os olhos grudados nos monitores, e ainda no conseguira progresso algum. Por alguma razo, sentia-se incapaz de trabalhar. Praguejando, tirou os fones e esfregou os olhos cansados, mas foi intil. Era como s as notas da melodia houvessem sido gravadas em seus tmpanos. Por que tinha de pensar tanto naquela mulher?
Porque precisava faz-la aceitar um convite para sair, ou Gary perderia seu precioso Mustang. E Laurentia Chase-Spenser no valia uma mquina to cara. Era to arrogante e antiptica, que no valia sequer um pea de segunda mo! Ento, por que havia implorado para que o ouvisse? E por que falara to srio? Por que, quando a convidara para sair, descobrira-se ansioso por uma resposta afirmativa?
Praguejou novamente no exato momento em que Alexander Nevins, seu melhor cinegrafista, entrou na sala com uma bandeja com caf e biscoitos.
	Parece que est tendo problemas  Alexander comentou com seu eterno ar inocente. Aos vinte e sete anos, ainda conservava um brilho ingnuo e esperanoso nos olhos azuis. Jamais bebia, fumava ou praguejava, e nunca derrubava equipamento caro. Era sempre educado com os clientes, e seu temperamento calmo representava o equilbrio de que Jeff necessitava para controlar as costumeiras os cilaes de humor.
Jeff olhou para o jovem e de repente descobriu por que era to calmo. Jamais namorava. No havia uma mulher em sua vida para torn-la miservel, instvel e complicada. Nessas circunstncias, que homem no teria a pacincia de um santo?
	Pegue  Alex ofereceu, estendendo um copo descartvel com
caf.  Comprei seus biscoitos favoritos.
Jeff acionou alguns botes na mesa de edio e congelou a imagem nas telas.
	No quero biscoitos  resmungou mal humorado.  Mas acho que estou precisando de um intervalo. Esse novo comercial est atrasado, e passei a noite toda trabalhando.
	Eu sei. Esteve editando a fita do casamento daquele seu amigo.
	Exatamente.
	Gostou do resultado?
Jeff encolheu os ombros. Era dono da maior produtora de vdeo de St. Louis, e normalmente no perdia tempo com coisas banais como filmar casamentos.
	Eu no gostaria de ter trabalhado naquela igreja  Alex comentou.  A iluminao  pssima!
	Tem razo. Alex... por acaso estudou numa dessas escolas exclusivas de St. Louis? Disse que conhecia Diane Bauer...
	A escola no era to exclusiva, e eu no conhecia Diane como est insinuando. Quero dizer, todos gostavam dela, mas freqentvamos crculos diferentes.
	E que crculo voc freqentava?
	Ah, voc sabe... O clube de matemtica. Fui o tesoureiro por trs anos consecutivos, e isso me conferiu alguma popularidade. Na escola onde estudei, ser tesoureiro do clube de matemtica era uma Posio realmente invejvel.
 Entendo. E por acaso lembra-se de uma outra garota dessa mesma escola, uma antiptica e arrogante com um nome pedante? Laurentia Chase-Spenser...
Alexander empalideceu. Tenso, esqueceu que ainda segurava o copo descartvel com caf e cerrou os punhos, derrubando a bebida quente e aromtica sobre parte da cala jeans.
	Laurentia?  repetiu aturdido?  Aqui? Ela ainda est na cidade?
	Voc a conhece?  Jeff insistiu, sentindo que uma tenso inexplicvel retesava os msculos de seus ombros.
	Se a conheo? Fui apaixonado por ela!
	Voc o qu?
Com o leno que havia retirado do bolso, Alex tentava limpar parte do caf que derrubara sobre a cala.
	Foi a primeira vez em que pensei estar apaixonado  disse.
 Ela era nova na escola, e absolutamente linda... de uma maneira diferente, especial. Sempre elegante, altiva... E era muito quieta, coisa que me encantava. Pensei que pudesse ser tmida, como eu.
S um garoto ingnuo como Alex seria capaz de confundir arrogncia com timidez. Temendo interromp-lo, Jeff limitou-se a afirmar com a cabea para demonstrar interesse.
	A culpa foi toda minha  Alexander prosseguiu com ar filosfico.  Havia sido eleito tesoureiro pela terceira vez, e isso me tornou um pouco... presunoso.
Alex, presunoso? Era como afirmar que um urso de pelcia podia ser cruel!
	Entendo  incentivou-o.
	Eu tinha alguns amigos no clube de matemtica... garotos irresponsveis e turbulentos... Eles descobriram que eu estava interessado nela e me convenceram a fazer algo insano, algo que eu no tinha o direito de fazer.
	Fez algo insano? O qu?
	Eu a convidei para sair.
	E o que h de to terrvel nisso?
	Ela no aceitou. Jamais sairia com algum como eu, percebe? Fui um idiota. No tinha o direito de ter convidado aquela garota...
	Ela disse isso?
	Ah, no! Na verdade, ela no disse nada. Apenas olhou para mim por alguns segundos, como se fosse falar alguma coisa, e depois virou as costas e partiu. Eu... bem, eu mereci esse tipo de tratamento.
Furioso, Jeff levantou-se e deu alguns passos pela sala. Era terrvel pensar em algum menosprezando uma criatura to dcil e sensvel como Alexander! Especialmente se esse algum fosse Laurentia Cha-se-Spenser, a Senhorita-Boa-Demais-Para-Qualquer-Um.
	O que aconteceu depois disso?
	Nada. Eu a coloquei numa posio embaraosa e ela no soube o que dizer. Nunca mais a convidei para sair, e contentei-me em admir-la  distncia.
	Entendo. E por acaso convidou outra garota para sair, algum menos intocvel?
	Sim, mas depois de muito tempo. Acho que no nasci para conquistar as garotas. No sou como voc, Jeff...
Em silncio, Remington teve de reconhecer que sempre fizera sucesso com o sexo oposto, sucesso que nem sempre lhe trouxera vantagens. Mary Ellen Pfieffer, por exemplo. Perseguira-o com tanta insistncia, que acabara descobrindo que a pobrezinha precisava de ajuda psicolgica. No fizera nada para encoraj-la, mas a experincia o ensinara a manter-se afastado das mulheres. At que a inatingvel Laurie cruzasse seu caminho.
	Espero que ela no o tenha feito desistir das garotas  disse.  Eu a conheci, e posso afirmar que Laurentia no merece tanto.
	Agora sou mais velho, e aprendi a lidar com o sexo feminino. Quanto a Laurie, no guardo nenhum rancor. Ela  uma pessoa especial, sabe?
	No h nada de especial naquela mulher! Se quer um consolo, eu a convidei para sair e ela recusou.
	Ela no quis sair... com voc?
	No, mas vou ter de insistir.  pelo bem de um grande amigo e... Isso o aborrece?  perguntou, pensando na possibilidade de Alex ainda ter algum interesse em Laurie.
	E claro que no! Por mais que diga o contrrio, h algo de fascinante naquela mulher. Sabe que at um prncipe apaixonou-se por ela?
	Um prncipe de verdade?
	Isso mesmo. Acho que foi na Itlia, onde ela estudava desenho. O tal prncipe a pediu em casamento e tambm foi rejeitado. Quer consolo melhor?
	No sei se quero algum tipo de consolo. Na verdade, a nica coisa que quero nesse momento  terminar o comercial e ir para casa.
Alexander saiu e Jeff tentou concentrar-se na mesa de edio.
Laurentia Chase-Spenser havia humilhado Alex, rejeitado um prncipe, e agora o ignorava.
De uma coisa tinha certeza. Por maior que fosse o esforo e o tempo empregado na batalha, faria essa mulher compreender de uma vez por todas que no era melhor que o resto da humanidade!

CAPITULO IV

Na quarta-feira, Jeff utilizou-se de um servio de entrega para enviar uma dzia de junquilhos  floricultura de Laurie. No carto que acompanhava as flores, escrevera uma mensagem simples em letra firme: Na linguagem das flores, isso significa que estou pedindo uma chance.
Junquilhos! Onde conseguira encontr-los nesta poca do ano? Junquilhos significavam: Retribua Minha Afeio. Mas como podia sentir algum afeto por ela, se mal a conhecia?
O telefone tocou. Normalmente deixava Mavis cuidar disso, mas a assistente havia sado para almoar, e por isso Laurie teve de atender.
	Flores e Laos, boa tarde.
	Laurie? Aqui  Jeff. Recebeu as flores?
Respirando fundo, preparou-se para falar de maneira pausada e firme.
	Sim. Voc cometeu um engano. Normalmente manda-se flores de uma floricultura... no para uma floricultura.
	No houve engano algum.
Olhando para os junquilhos, cuidadosamente ajeitados num elegante vaso de cristal, e pensando no servio de entrega que ele havia utilizado, teve certeza de que a brincadeira lhe custara uma pequena fortuna.
	Laurie?
	Por qu?  perguntou irritada.  Por que est... fazendo isso comigo?
	Gostaria de conhec-la melhor. Aceitaria tomar um caf comigo depois do trabalho?
	No.
	Por que tem sempre de me dar esse no seco? No conhece outras palavras?
	No.
	Existe alguma coisa no mundo que eu possa fazer para ouvir um sim?
	No.
	Laurie, quer pelo menos me ouvir?
	No!  e desligou o telefone.
Em seguida chamou o entregador da floricultura e ordenou que levasse os junquilhos de volta ao estdio de Jeff Remington, tomando o cuidado de acrescentar um exemplar de boca-de-leo ao buqu. Na linguagem das flores, o ato eqivalia a dizer: Voc  presunoso.
Na quinta-feira ele apareceu na floricultura carregando um vaso com o que restava de uma samambaia. Ignorando o brilho intenso daqueles olhos negros, Laurie balanou a cabea num gesto de piedade e incompreenso.
	No sei o que andou fazendo com essa pobre planta, mas devia ser processado por agresso ao meio ambiente.
	Eu a trouxe para ser curada  ele explicou, parando diante do balco e colocando o vaso sobre ele.  Se no puder salv-la, quem poder?
	Ningum. A planta est morta, e devia se envergonhar de ter negligenciado a pobrezinha de forma to cruel.
	Eu no a negligenciei. Encontrei o vaso na porta do estdio, e achei que voc poderia salv-la.
	Nada pode salv-la. Jamais pensei que fosse possvel matar esse tipo de samambaia, mas voc conseguiu.
Sentindo que o nervoso a faria gaguejar a qualquer instante, Laurie virou-se e pensou em fugir para a segurana da estufa, mas sabia que ele no a deixaria escapar. E se a tocasse novamente...
	Laurie, olhe para mim. Sei que no h outro homem em sua vida. J andei perguntando...
Furiosa, virou-se e cruzou os braos sobre o peito numa atitude defensiva.
	No se atreva a fazer perguntas a meu respeito. O assunto no  de sua conta.
	Voc passou a ser um assunto que me interessa.
O rangido da porta a fez perceber que algum entrava na floricultura e, aliviada, virou-se para o homem que aproximava-se do
balco.
	Com licena... Estou interrompendo?
Um silncio pesado pairou sobre eles durante alguns segundos, at que Jeff ergueu os ombros com impacincia e respondeu:
	Eu j estava de sada. Deixei os junquilhos na porta. No sei como cuidar deles, e seria terrvel deixar flores to delicadas morrerem por falta de tratamento adequado.
Em silncio, Laurie esperou que ele sasse e, ao ouvir o rangido da porta, expeliu o ar que havia mantido preso nos pulmes.
	Junquilhos?  o cliente perguntou interessado.
	Isso mesmo. Pode me dar licena um instante?  e foi buscar o vaso que Jeff afirmara ter deixado na porta.
Os junquilhos ainda estavam envolvidos pelo celofane, mas a boca-de-leo havia desaparecido. Encantada com a delicada beleza das flores, Laurie levou-as para dentro e deixou-as sobre o balco.
	Junquilhos  o cliente repetiu.  Pretendia comprar cravos para minha me, mas gostei dessas flores. Vou levar meia dzia.
	Desculpe, mas elas no esto  venda.
O cliente comprou os cravos e se foi, deixando-a intrigada. Por que recusara-se a vender as flores, se no significavam absolutamente nada?
Na noite seguinte, Laurie deixou a floricultura s seis e meia, algum tempo depois dos dois empregados terem ido embora. Uma chuva fina deixava as ruas midas e cinzentas, e o clima era adequado ao seu estado de esprito. Jeff no havia dado sinal de vida, e sabia que devia estar agradecida. Mas, em vez, disso, sentia apenas um grande vazio.
Apressada, entrou na caminhonete pensando no compromisso profissional que ainda teria de enfrentar antes de ir para casa relaxar, um jantar com um tal sr. Philipi. O sujeito queria encomendar um arranjo para ser utilizado num comercial de seu estabelecimento, uma loja de suprimentos de jardinagem que realizaria uma grande venda especial no dia quatro de julho.
O trabalho seria caro, e o sr. Philipi parecia ser um desses consumidores inseguros que sentem necessidade de explicar o que pretendem com todos os detalhes. S dispunha de tempo depois do expediente, e por isso a convidara para jantar no Granatelli's. O encontro havia sido marcado para as sete e meia.
A ltima coisa que desejava era enfrentar um jantar comercial, mas o trabalho estava sempre acima de tudo. Alm de cansada, estava preocupada com a flor dos feiticeiros. O boto no crescera um nico centmetro nos ltimos dias, e isso a inquietava.
Sua maior esperana era a de ver aquela planta florescer. At ento, apenas uma outra amostra da flor dos feiticeiros havia florescido no continente americano, na Universidade do Canad, e a flor fora pequena e sem qualidade.
E se o boto jamais se abrisse? E se morresse, levando com ele todas as suas esperanas? Anos, talvez dcadas se passariam at que outra planta passasse pelo menos processo!
No restaurante, disse ao garom que era convidada do sr. Philipi e foi levada a um dos reservados. O Granatelli's conseguia combinar o requinte com a atmosfera domstica, o estilo e o aconchego, e uma refeio no famoso restaurante italiano era sempre motivo de grande prazer. Sentada, passou o tempo observando as fotos de Milo que adornavam a parede da saleta.
Era intil preocupar-se com a flor. Havia feito tudo o que estava a seu alcance para nutri-la, e agora a natureza teria de cuidar do resto.
	Parece to compenetrada, que chego a me odiar por interromp-la.
A voz familiar a fez saltar na cadeira, imediatamente tensa. Jeff Remington sorria e puxava uma das cadeiras para sentar-se.
	Parece que vamos jantar juntos, afinal.
	Voc...  Laurie sussurrou perplexa, incapaz de pensar em algo mais sensato para dizer.
	Eu. E fala como se isso fosse uma acusao, e no uma simples constatao.
	O que... est fazendo aqui?  perguntou, notando que ele usava uma boca-de-leo na lapela.
	Vim encontrar o sr. Philipi, como voc  e olhou para o relgio.  Ele deve chegar a qualquer minuto.
	Por que vai encontrar o... sr. Philipi?
	Pela mesma razo que voc. Negcios.
	Ele me convidou para jantar porque... queria discutir um arranjo de flores.
Jeff afirmou com a cabea e, notando a entrada do garom, pediu dois copos de vinho antes de concentrar-se novamente em Laurie.
	Espero que no se importe por eu ter pedido a bebida. Parece um pouco nervosa, e um bom vinho sempre ajuda a relaxar. Escute, no h nada de misterioso em tudo isso. Sempre filmei os comerciais de Philipi, e sei que ele teve uma excelente idia sobre a venda especial do quatro de julho. Philipi  timo com suprimentos e ferramentas para jardins, mas  incapaz de arrumar uma flor num vaso. Por isso recomendei seu nome.
Laura fitou-o desconfiada.
	... difcil de acreditar.
	Por que no confia em mim?
	Porque voc no ... digno de confiana.
	Por que no?
O garom chegou com o vinho e Laurie esperou que ele partisse. Em silncio, manteve os olhos fixos em Jeff  procura de algum sinal, uma reao qualquer que pudesse trair suas verdadeiras intenes.
	Por que no confia em mim?  ele insistiu assim que ficaram sozinhos.
	Porque voc persegue as mulheres.
	Est falando como se eu fosse o vilo de um melodrama vitoriano  ele riu, bebendo um pouco do vinho.  Qual  meu maior pecado? Perseguir mulheres!
	No h nada de engraado nisso. No casamento, perseguiu Suzanne Carrington e Tammy Farentino, e depois decidiu me perturbar, tambm. E continua me perturbando!
	E voc continua fugindo. No tenho opo, percebe?
	No, e  lgico que voc tem opo. Na verdade... tenho certeza de que nem simpatizou comigo... quando nos conhecemos.
Por que tinha de gaguejar sempre que o assunto tornava-se mais pessoal?
Jeff forou um sorriso, mas era evidente que estava tenso.
	Por que no paramos de discutir meus pecados passados? Temos um trabalho a fazer, e acho que devemos tentar nos entender como pessoas normais. Voc e Diane so amigas ntimas?
	No. J disse que somos apenas... amigas. Sempre gostei dela.
	Nick e eu somos amigos desde a infncia. Praticamente vivi na casa dele. Os Granatelli so assim... sempre prontos a receber uma pessoa querida.
	Isso  bom  Laurie comentou sem interesse, como se no quisesse saber nada sobre sua infncia ou juventude.
Jeff esvaziou o copo e deixou-o sobre a mesa. Fazendo um sinal para o garom, pediu mais duas doses de vinho e cruzou as mos sobre a mesa, gesto que enfatizou seus ombros largos e fortes.
	Fale-me sobre voc  pediu.  Por que tem um hfen em seu nome? Para intimidar as pessoas? Sim, porque voc pode ser bem intimidante, se ainda no sabe...
Laurie fitou-o com expresso fria, escondendo a surpresa provocada pelo comentrio.
	Meus pais so divorciados, e minha me voltou a usar o nome de solteira. Queria que eu tivesse os dois nomes, e ento surgiu o hfen.
	Est vendo? J temos algo em comum. Meus pais tambm se divorciaram. Cresci com minha av italiana. Na verdade, sou s um quarto italiano. O resto da famlia  uma mistura digna do continente americano, a terra das oportunidades e dos imigrantes. Nenhuma gota de sangue azul. E isso que tem contra mim?
	No me importo com... a cor do seu sangue  ela respondeu, bebendo um pouco do vinho e aproveitando para controlar a respirao.
No queria olhar para ele'. Era forte, bonito, atraente, e no podia correr o risco de deixar-se atrair por um homem to perigoso.
O garom trouxe os dois copos de vinho e deixou-os sobre a mesa, desaparecendo em seguida.
	Eu no queria mais vinho  Laurie protestou.
	Pensei que estivesse gostando. Escute aqui, meu sangue no  azul, meu nome no consta dos registros sociais e nunca freqentei escolas caras e exclusivas. Mas constru um negcio prspero e conquistei o respeito dos meus clientes. Seria muito pedir que ao menos olhasse para mim?
Laurie balanou a cabea e, nervosa, desviou os olhos dos dele, temendo o impacto que tinham sobre suas emoes.
	Parece que no me considera digno de sua ateno  ele sorriu com sarcasmo.  Vivo tentando faz-la mudar de idia, e tudo o que consigo  uma coleo de fracassos. Mesmo assim, no vejo por que no podemos ter um jantar agradvel. Isso,  claro, se ao menos se der ao trabalho de falar.
Vermelha, Laurie afastou a cadeira e deixou o guardanapo sobre a mesa.
	No temos nada a... falar. Se me der licena... estou indo embora.
	No pode ir embora! Philipi ainda no chegou!
	E nem vai... chegar. Vai?
	O que quer dizer?
	Sabe exatamente o que quero dizer. Quando eu terminasse de tomar o segundo copo de vinho, o garom viria dizer que o sr. Philipi telefonou pedindo desculpas pelo atraso e sugerindo que comessemos sem ele. Mais tarde, depois de mais alguns copos, o mesmo garom voltaria para dizer que o sr. Philipi ligou novamente dizendo que, infelizmente, no pde comparecer.
Vendo-a apanhar a bolsa, Jeff levantou-se e seguiu-a at perto da porta, bloqueando a sada com o corpo musculoso.
	Est me acusando de...
	Sim, estou  ela o interrompeu, empurrando-o e saindo sem olhar para trs.
	Laurie...
	Escute aqui  explodiu, parando para fit-lo com expresso furiosa , no sei o que voc quer, e.nem quero saber!
Tentou afastar-se rapidamente, mas Jeff a segurou pelo brao e tentou lev-la na direo do estacionamento.
	Tire a mo de cima de mim! Tomamos uma bebida juntos, conversamos... No  o suficiente para voc?
	Quase, mas ainda no o bastante.
Estava irritado, e a fora com que a segurava a obrigou a parar.
	Posso dizer que samos  Jeff murmurou.  Ns nos encontramos, tomamos um drinque... Metade dos empregados do Gra-natelli's nos viu naquela mesa.
	O que... Onde est querendo... chegar?
	Estou dizendo que no foi divertido, nem agradvel, e que no teria suportado sua companhia se no fosse absolutamente necessrio.
	Ne... necessrio?
	Exatamente. Algum apostou que eu no conseguiria sair com voc.
Uma onda de dio e terror a invadiu.
	Uma... aposta? Por isso insistiu nessa... idiotice?
Jeff afirmou com a cabea, a mandbula tensa em sinal de raiva contida.
	Por isso insisti nessa idiotice. E acredite, no posso pensar em nenhuma outra razo para estar com voc. Uma mulher fria, arrogante, afetada...
	Eu? J se olhou no espelho? Isso ... ...  estava nervosa demais para pronunciar a palavra desprezvel, mas sabia que a mensagem estava estampada em seus olhos.
	No me importo com o que pensa  ele a interrompeu.  S h mais alguma coisa a fazer antes de encerrar esse lamentvel episdio, e  beij-la e despedir-me. E  um prazer dizer adeus, srta. Chase-Spenser.
Num gesto rpido, Jeff inclinou-se para beij-la no rosto, mas Laurie virou-se e os lbios se encontraram.
Devia ter se afastado dela imediatamente, mas foi impossvel. O beijo prolongou-se at que, sentindo que as mos comeavam a mover-se por suas costas, Laurie voltou  realidade e empurrou-o, fugindo como se um demnio a perseguisse.
No instante seguinte j havia deixado o estacionamento em alta velocidade.
Jeff Remington permaneceu no mesmo lugar, atnito, dominado por emoes estranhas e poderosas.

CAPITULO V

Laurie dirigiu pelas ruas midas to furiosa com Jeff quanto com ela mesma.
Uma aposta!- Ele a perseguira por causa de uma aposta!
Vinnie devia saber. Por isso a prevenira. E Aldo, Sophia... Todos haviam tentado proteg-la.
Fora tratada como um objeto, ouvira coisas terrveis e ofensivas, e isso doa. Odiava Jeff Remington pela dor que a fazia sentir.
Era horrvel pensar que, ao notar que ele inclinava-se para beij-la, oferecera os lbios num gesto quase instintivo. No tentara fugir, resistir, ou impedir. Apenas havia ficado parada na chuva como uma idiota, deixando que ele a beijasse at que o calor de seu corpo a embriagasse.
O homem era terrvel e, no entanto, sentia-se atrada por ele desde o primeiro instante, embora houvesse relutado em admitir. Por isso a deixava to nervosa.
Infelizmente a natureza o abenoara com dotes extraordinrios, e isso o tornara arrogante. Remington decidira us-la para se divertir com os amigos, e conseguira o que queria.
No! Jeff no fora bem sucedido! No havia concordado com o encontro, e no permitiria que as pessoas pensassem o contrrio.
Se achava que as mulheres eram brinquedos que podiam ser deixados de lado quando a brincadeira chegava ao fim, desta vez o faria ver que estava enganado. O atingiria onde a dor de ter sido atingido o tornasse vulnervel: em seu orgulho.
E sabia exatamente o que fazer para devolver todo o sofrimento que estava enfrentando.
O sol matinal penetrava pelas grandes janelas da floricultura, mas de repente o ambiente pareceu subitamente escuro. O mesmo mensageiro que trouxera os junquilhos aproximava-se do balco, e desta vez carregava um buqu ainda maior.
	O que  isso?  Laurie protestou ao receber o enorme ramalhete de flores do campo.  No vou receb-las!
	Estou cumprindo ordens, madame. A mensagem est no carto.
Eram dez horas da manh, e Laurie estava terminando de preparar os arranjos para um casamento no incio da tarde. Embora j houvesse conseguido convencer-se de que havia superado o desastre com Jeff Remington, no tinha tempo, e nem disposio, para suportar suas surpresas sem graa.
Irritada, virou o ramalhete entre as mos at encontrar o carto.
"Laurie, acho que podia sentir-me pior sobre o que aconteceu ontem  noite, mas no sei como. Flores do campo significam remorso. Estou arrependido."
Contendo as batidas aceleradas do corao, devolveu o carto ao envelope e olhou para as flores com ar desanimado.
	Quanto cobra para fazer uma entrega?  perguntou ao mensageiro.
	Quinze dlares no permetro urbano, e vinte no subrbio.
Decidida, abriu a caixa registradora, retirou duas notas de dez e entregou-as ao rapaz com o ramalhete de flores.
	Leve isso de volta ao sr. Remington.
	Sim, senhora. Alguma mensagem?
	Sim. Diga a ele para pegar esse buqu e... com-lo!
	Acho que ele no vai gostar disso.
	Melhor ainda!
No sabia o que Jeff Remington pretendia desta vez, mas disse a si mesma que no estava interessada.
J havia posto em ao o plano de vingana. Telefonara para o departamento de classificados do jornal local nas primeiras horas da manh e havia ditado uma breve mensagem. Em pouco tempo, St. Louis saberia que jamais havia sado com Jeff Remington.
Era o dia de seu aniversrio. Quatro dias haviam se passado desde que Jeff lhe mandara o buqu de flores do campo, e no voltara a ouvir falar dele.
Mas ele e boa parte de St. Louis haviam visto seu nome.
Que diabos significa aquele anncio no jornal?  seu tio perguntou.  As pessoas no falam em outra coisa.
Estava jantando com seu tio-av Merritt. No final de semana, toda a famlia comemoraria o aniversrio num grande e ruidoso piquenique, mas Merritt era surdo e no gostava de grandes grupos. Sempre havia preferido celebraes mais calmas.
Era o nico membro da famlia que Laurie considerava realmente rico. Apesar de excntrico, sempre a tratara com bondade e carinho, colocando-a no lugar dos filhos que jamais tivera.
Laurie sorriu antes de responder:
	Coloquei um anncio na coluna de avisos e proclamas.
	Sim, eu vi. Por que fez isso?
Encolhendo os ombros, lembrou-se do anncio que havia sido publicado no jornal da cidade.
"A quem possa interessar, eu, Laurie Chase-Spenser, declaro que jamais tive ou terei um encontro com Jeff Remington."
	Precisava deixar claro que nunca concordei em acompanh-lo  parte alguma  explicou.
	Mas... quem  esse homem, e por que tinha de deixar claro que no haviam sado juntos? O que ele fez?
Felizmente jantavam na casa do tio, e no em um restaurante. Por causa da surdez, Merritt praticamente gritava ao conversar com algum.
	 s um homem. Ele ap... apostou que conseguiria sair comigo, e pretendia afirmar que conseguira. Por isso pus o anncio.
	Ah! Ento ele mereceu! Foi bem feito!
Laurie fitou-o com expresso incerta. O anncio havia sido publicado dois dias antes, e ver seu nome ligado ao dele num veculo pblico a deixara um pouco perturbada.
Mas Merritt no parecia ter dvidas sobre sua atitude.
	Ele teve o que mereceu. Fazer apostas envolvendo o nome de minha sobrinha! Ha! Agora esse sujeito sabe que tipo de gente compe nossa famlia!
Laurie no queria falar sobre o assunto, e por isso manteve-se em silncio. Esperava que o anncio pusesse um ponto final na humilhao por que passara, e faria o possvel para encerrar o episdio de uma vez por todas.
Sentindo sua disposio, Merritt ofereceu:
	Experimente a sopa francesa. Ainda no disse nada sobre aquela planta mgica que ganhou daquele amigo de Cambasia.
	A flor dos feiticeiros  Laurie sorriu, satisfeita com a mudana.
	Ela vai mesmo florescer?
	Parece que sim.  O boto comeara a crescer novamente, e dobrara de tamanho nos ltimos dois dias.
	E quando acha que vai acontecer?
	No tenho certeza. Talvez em uma semana, ou um pouco mais.
	E como isso vai acontecer?
	Bem...  um evento um pouco incomum. Normalmente a flor desabrocha entre a meia noite e o alvorecer.
	Ah! Voc  mesmo muito modesta! Um evento incomum... E a primeira vez que essa coisa vai desabrochar em solo americano, no?
	Se desabrochar...
	Vai desabrochar! E graas a voc, que fez o milagre acontecer. Isso vai ser um evento e tanto! Devia estar gritando a notcia em praa pblica, Laurie!
	Tio, foi s um pouco de... sorte.
	Sorte? O destino no tem nada a ver com isso! Aquele boto  obra do conhecimento e da determinao. Voc  a melhor florista de St. Louis, e todos sabem disso. Sabe por que essa planta no floresceu em nenhuma outra parte do pas? Porque ningum foi o bastante para faz-la florir. Voc foi a nica capaz de chegar to perto da faanha.
	Se eu no houvesse ganho a planta, no teria tido uma chance de cuidar dela com empenho e dedicao. E agora Cambasia no permite mais a sada da flor dos feiticeiros do pas, o que significa que realmente tive sorte.
	Acha que foi a sorte que fez aquele prncipe gostar tanto de voc? No. Foi voc, o tipo de pessoa adorvel que .
	O prncipe era s um... amigo  protestou embaraada.
	Um amigo! Ele queria se casar com voc.
	Ns estudamos juntos durante algum tempo, s isso.
	Quando o prncipe lhe deu um presente, no foi por sorte. Foi porque queria agrad-la, porque encantou-se com suas qualidades. Beleza, juventude, inteligncia, talento, bondade, sensibilidade...
	Tio Merritt, por favor...
	 seu aniversrio, e posso elogi-la quanto quiser. Vamos brindar ao seu sucesso, minha querida. Lembro-me de quando mal falava com as pessoas, porque no podia falar. Mas enfrentou seus problemas, conseguiu super-los e hoje  uma profissional reconhecida e respeitada. Sade!  e ergueu o copo.
Laurie sorriu, demonstrando todo o carinho que sentia pelo tio. Durante muito tempo, haviam sido os dois membros estranhos da famlia. A menina tmida e gag que no podia falar com ningum, e o homem autoritrio e ruidoso que no ouvia o que os outros diziam. Havia sido a nica sobrinha a compreend-lo e trat-lo com pacincia, e tio Merritt havia retribudo com incentivo e afeto genuno.
	E verdade que existem lendas sobre essa planta?  ele perguntou.
	Sim, mas so apenas lendas sem fundamentos.
	Entendo. J tentou imaginar qual ser o seu presente de aniversrio?
	Se eu conseguisse imaginar, voc se consideraria um tremendo fracasso  riu.
	E verdade. Como sei que no vai descobrir, vou lhe dar uma pista. A surpresa est relacionada  tal planta. Quanto ela florescer, telefone para mim imediatamente, e ento receber seu presente.
	E se a planta no florir? No tenho certeza...
	Ela vai florescer, meu bem. E para,voc. E j que resolvemos esse assunto... Por que foi que colocou aquele assunto no jornal? Ah, sim! A aposta! Por que diabos o sujeito fez uma aposta envolvendo seu nome?
O sorriso desapareceu dos lbios de Laurie. No queria pensar em Jeff Remington, e lembrar dele a fazia sentir arrepios e terrveis pressentimentos.
	Algumas pessoas me consideram arrogante  explicou.  ... a maneira como falo. Acho que devo ter representado um... desafio, ou coisa parecida.
	Mmmmph!  isso mesmo. Voc  um desafio que ele no pde vencer. Um anncio no jornal! Excelente idia, meu bem.
Mas, em vez do doce sabor da vitria, Laurie s conseguia sentir o frio provocado por um imenso vazio em seu peito.	
Uma semana depois do jantar do aniversrio, a planta deu sinais de estar pronta para florescer.
Laurie estava nervosa, mas forou-se a desempenhar todas as tarefas dirias at que, s quatro da tarde, teve certeza de que ia acontecer. A coroa de folhas junto ao caule comeava a se abrir, mostrando as primeiras fileiras de amarelo plido sob a superfcie verde.
Lembrando-se do que tio Merritt havia dito sobre seu presente de aniversrio, telefonou para lhe dar a notcia.
	Vai florescer?  ele gritou.  Esta noite?
	Sim, agora tenho certeza. Disse que gostaria de saber... Por que no vem apreciar o espetculo comigo?  uma' ocorrncia rara, tio! Dizem que a planta s d uma flor a cada sculo. Nunca mais teremos outra chance de ver algo to maravilhoso.
	Voc e sua flor so jovens o bastante para passarem uma noite acordadas, mas eu... No se preocupe, querida. Vou apreciar o espetculo. Mais tarde.
	Sim, poder ver a flor, mas... no gostaria de v-la desabro-chando? Quero dizer, ningum em nosso pas presenciou esse acontecimento. Vou ter de ver tudo sozinha? Mavis tem dois filhos pequenos, e no pode deix-los sozinhos em casa para ficar olhando uma flor se abrir.
	Voc no entendeu, querida. Eu disse que vou ver a flor de-sabrochar... mais tarde. E voc no estar sozinha. O Canal Natural vir de Washington para filmar o evento. A imagem ser editada e mostrada no especial semanal da emissora.
	O Canal Natural! Est falando srio?
	Absolutamente!  Merritt garantiu.
O Canal Natural era uma rede de tev a cabo especializada em programas sobre o mundo natural. Ver seu trabalho exaltado num especial da emissora, e ainda saber que a imagem da flor dos feiticeiros seria eternizada e dividida com o restante do mundo era simplesmente maravilhoso. O melhor presente que algum poderia lhe dar.
	Oh, tio Merritt...
	Entrei em contato com as estaes locais de televiso, e eles me disseram que essa histria pode alcanar repercusso nacional. Voc ser famosa! No... No vai gostar disso. Sua flor ser famosa. At a National Geographic est interessada!
	Tio Merritt, isso  um sonho! Voc  o homem mais maravilhoso que...
	O qu? O qu? No estou ouvindo! A ligao ficou muito ruim! E por que est perdendo tempo comigo? V cuidar do seu beb. Verei o filme assim que ele for editado. Prepare-se para receber visitas de Washington. Feliz aniversrio, querida.
Laurie desligou   telefone e enxugou uma lgrima de felicidade.
	Voc ouviu isso?  perguntou, notando que Mavis a observava com ar curioso.  O Canal Natural vai mandar uma equipe de Washington para filmar o desabrochar da flor.
	Isso  maravilhoso!
	E tio Merritt disse que todas as estaes de tev mandaro reprteres...  e parou, arregalando os olhos como se s ento houvesse pensado em algo importante.  Oh, Mavis! No posso falar com os reprteres! Vou ficar nervosa, e sabe o que acontece quando algo me perturba.
	Deixe isso comigo. Mas vai ter de posar para as fotos. Afinal, voc  a dona da planta.
	No posso ser fotografada depois de passar a noite toda acordada! Estarei horrorosa!
	Basta sorrir como estava sorrindo h pouco, e garanto que tudo sair bem. Sabe de uma coisa, Laurie? Estou contente por ver voc feliz novamente. Andei preocupada com o seu desnimo nas ltimas semanas, desde aquela histria com o tal Remington.
Remington. Como sempre, lembrar dele a obrigava a reconhecer o vazio que persistia em seu peito, apesar de todas as conquistas e alegrias da ltima semana.
	Laurie... Se no quer tocar no assunto, no vou insistir. S
comentei porque... Bem, desde que ele entrou em cena, voc tem
agido como se fosse outra pessoa, e isso me aflige.
Ainda sentia-se triste e humilhada por causa da aposta. Havia telefonado para Sophia, que confirmara tudo e a consolara, dizendo que a brincadeira era apenas mais uma indicao da idiotice dos homens.
	Eu... estava preocupada com a flor  mentiu, tentando encerrar o assunto de uma vez por todas.
	Tem certeza?
	 claro que... sim. O tal Remington no significa nada para mim. Na verdade, j consegui dar boas risadas de toda aquela histria absurda.
Ele no significa nada para mim. E eu no significo nada para ele.
Por que a verdade a incomodava tanto?
Munida de garrafas trmica com caf, bandejas de sanduches e uma caixa de biscoitos, Laurie acomodou-se na estufa  espera da equipe da televiso. Havia ido at em casa para buscar uma valise com maquiagem, roupas linipas, escova de dentes e cabelos, e mais algumas bobagens das quais pudesse precisar antes de posar para as fotos. Aproveitando a viagem, trouxera tambm sua mquina fotogrfica e uma geladeira porttil cheia de refrigerantes.
Era quase meia noite, e estava sentada diante da planta com a cmera no colo. As luzes da estufa estavam apagadas, e a nica iluminao existente era aquela que provinha da frente da floricultura. Queria manter o ambiente prximo do natural.
Ouvindo o barulho do motor de um carro no estacionamento, levantou-se e foi receber a equipe do Canal Natural.
Mas, ao abrir a porta da floricultura e deparar-se com um peito amplo e forte, teve de erguer a cabea para encarar o recm-chegado, um homem de quase dois metros de altura, moreno e...
Alucinao! Uma pea pregada pela luz!
Mas as batidas aceleradas do corao a fizeram perceber que no estava alucinando. A ltima vez em que vira aquele rosto havia sido no estacionamento do restaurante Granatelli's...
Srio, Jeff ajeitou a cmera sobre o ombro e disse:
	Tambm no gosto disso, mas tenho um contrato a cumprir. Jamais misturo trabalho e assuntos pessoais, e se tenho de filmar a tal planta...
	Voc? No... O Canal Natural vai... mandar uma equipe.
	Importa-se se eu preparar o ambiente?  e entrou sem esperar pela resposta. Rpido, acendeu todas as luzes da estufa e armou o trip onde apoiou a filmadora.
	Onde est a... equipe?
	Eu sou a equipe do Canal Natural. Essa  rvore maravilhosa? Parece uma bananeira.
	Esta  uma bananeira! A planta que vai florescer  aquela... a flor dos feiticeiros.
	Ah! Aquela parece um cctus com crise de identidade.
	Quer fazer o favor de... explicar o que est havendo? O Canal Natural...
	O Canal Natural no mandaria uma equipe de Washington para fazer um filme que, depois de editado, ter menos de trinta segundos. Esse  o tipo de trabalho para o qual eles contratam terceiros... E nesta regio, eu sou o terceiro que eles contratam.
	Est dizendo... que algum da tev telefonou de Washington para lhe dar esse trabalho?
	Exatamente.
	Meu tio sabia que voc seria envolvido nisso?
	No conheo seu tio, e no tenho a menor idia do que ele faz no meio dessa histria.
	Ah, esquea! Voc sabia que a planta era minha, e que teria de me encontrar para... fazer a filmagem. Por que aceitou?
	Porque tenho um contrato com a emissora. Fao a maior parte das filmagens nesta regio, e no posso recusar trabalho por questes pessoais. Se no suporta minha companhia, v para casa e volte amanh.
	Trata-se da minha floricultura, minha estufa e minha planta! Esperei anos por isso, e no perder o espetculo por sua causa!
	Faa como quiser  ele riu, virando-se para preparar o equipamento.

CAPITULO VI

	As luzes no vo... atrapalhar o processo, vo?
	No  Laurie respondeu, sentando-se novamente e cruzando os braos.
Sabia que a planta seguiria o ritmo da natureza independente da iluminao artificial, mas havia preferido manter o ambiente intocado at o ltimo instante.
Jeff ajustou a filmadora e foi sentar-se em outra cadeira. Olhando para os suprimentos que ela providenciara, conteve um bocejo e perguntou:
	Estava esperando um batalho?
Incapaz de vencer o temor de gaguejar, Laurie preferiu manter-se em silncio.
	J entendi. No vai falar, como sempre. Esqueci que a mdia impressa tem sua preferncia. Redigiu mais algum anncio interessante nos ltimos dias?
	Se est falando sobre aquele anncio no jornal...
	No preciso falar sobre ele. A cidade toda fez isso por mim. Parabns! Meus amigos riram s minhas custas durante dias.
	Voc teve... o que mereceu. No o deixaria vencer aquela... aposta idiota.
	Podia ter economizado seu dinheiro. A aposta foi cancelada.
	Cancelada?
	Isso mesmo. Aldo comeou a sentir-se culpado e confessou que Vinnie havia contado tudo a Sophia que, por sua vez, preveniu-a. Brincou comigo o tempo, todo, no ? Sabia sobre a posta.
	Eu no sabia. As pessoas me preveniram sobre... voc, mas ningum disse por qu. No sabia que havia uma... aposta. S sabia que era... suspeito.
	Suspeito?
	Sim, suspeito. E acreditei, porque o vi... perseguindo todas as mulheres.
	Eu no estava perseguindo todas as mulheres. Apenas as trs mais difceis.
	Foi uma atitude ofensiva e... baixa.
	Concordo plenamente. E eu fui o mais prejudicado. Nunca passei trs noites piores em toda minha vida.
	Ha!
	 verdade. Sa com Suzanne Carrington, e tive de passar horas ouvindo suas histrias sem graa. Depois sa com Tammy Farentino, e fui obrigado a passar a noite toda sorrindo de seus gestos forados e ensaiados. E depois... voc!
	Voc no saiu... comigo!
	Sim, lembro-me de ter lido essa afirmao no jornal. Escute, no queria ferir seus sentimentos, e peo desculpas pelo que aconteceu. De qualquer forma, acho que j fui castigado. Aquele maldito anncio foi publicado depois do cancelamento da aposta, e fiz papel de bobo diante de toda uma cidade. No acha que  o bastante?
	Espera que eu me preocupe com sua... sensibilidade? Mentiu para trs mulheres, enganou-as, iludiu-as, e ainda quer que eu tenha pena de voc?
	No pretendia mentir para ningum. Fui envolvido por aquela brincadeira da aposta, e s estava tentando salvar um amigo. Ele apostou um Mustang 1968...
	Fez tudo aqui... por causa de um carro? Voc  realmente... desprezvel!
	Sou um homem, droga!
	 a mesma coisa.
	Esse  o seu problema. Voc odeia os homens.
	No odeio... ningum. Mas fui prevenida contra voc. P... por m... minha prima, inclusive. E ela no sabia nada sobre sua... aposta. A propsito, no devia estar filmando? Por que no vai trabalhar e me deixa em paz?
	Eu estou trabalhando. A filmadora  automtica. S preciso ficar aqui para o caso dela falhar. Afinal, por que algum a preveniria contra mim? Tudo o que fiz foi convid-la para sair. Esse foi meu nico pecado; convidar trs mulheres para sair, e s para salvar um amigo que havia apostado algo que no podia perder. E por que sua prima se envolveu nessa histria, se nem a conheo?
	Minha prima Shirley Spenser... contou tudo a seu respeito.
	Shirley Spenser? No me lembro...
	Ela o conheceu na universidade. Era amiga de Mary Ellen Pfieffer.
	Mary Ellen?  Jeff repetiu atnito, levantando-se de um salto.  Sua prima  aquela Shirley?
	Exatamente. Por que arruinou a vida daquela pobre moa? Algum... apostou um jogo de p... pneus?
Rpido, Remington ajoelhou-se diante dela e segurou suas mos.
	N... no me t... toque.
	Eu no arruinei a vida de Mary Ellen. Ela mesma a destruiu. E sua prima fez o favor de ajudar a me infernizar com aqueles telefonemas inconvenientes e insistentes.
	Escute aqui...
	No!  voc quem vai ouvir. No sei o que sua prima lhe disse, mas Mary Ellen era um desastre em potencial. Decidiu que queria apaixonar-se tragicamente por algum, e eu fui o escolhido. Sa com ela duas vezes, e tomei o cuidado de preveni-la sobre o tipo de vida que levava. Jogava basquete pela universidade para garantir a bolsa de estudos, e no tinha tempo para me envolver com garotas, jamais saa com uma delas mais que duas vezes, e Mary Ellen sabia disso. Mas decidiu me perseguir, e no tenho culpa se ela era viciada em melodrama... como sua prima.
A indignao de Remington era to intensa e sua sinceridade, to evidente que, aliadas ao calor de, suas mos, ameaaram atordo-la.
Conhecia Shirley, e sabia que tudo o que ele havia dito a seu respeito era verdade. No questionara sua verso sobre a histria de Mary Ellen Pfieffer porque havia preferido acreditar no pior e, injustamente, passara a tratar Jeff Remington como a mais vil das criaturas.
Percebendo que conseguia convenc-la, Jeff soltou suas mos e fitou-a nos olhos.
	Laurie, eu nunca tive a inteno de magoar aquela garota. Tinha dezoito anos de idade, e s pensava em concluir o curso e ser um bom jogador de basquete. Nunca a iludi, entende? Foi ela quem quase me enlouqueceu com seu comportamento desequilibrado e inconveniente.
No sabia o que dizer, e por isso permaneceu em silncio.
	Tudo bem  Remington continuou.  No precisa acreditar em mim. Mas tambm no tem o direito de me julgar, srta. Compaixo! Lembra-se do que fez com Alex Nevins?
	O qu?
Devagar, Jeff levantou-se, verificou a filmadora e foi encostar-se na parede da estufa, de onde podia observ-la sem aproximar-se.
	Alexander Nevins. Ele me contou sobre o prncipe, tambm. Nem mesmo a realeza foi boa o bastante para voc. Ouvi dizer que Sua Alteza Real lhe deu essa planta de presente... Por isso cultivou a amizade do prncipe? Pelo que sei, essa coisa vale o prprio peso em ouro. Usou seus... encantos de maneira bem inteligente.
	O p... prncipe era um amigo  gaguejou.  Nunca p... pensei em tirar nada dele. Estudamos juntos na Itlia. ramos es... estrangeiros, e ele sempre foi m... muito tmido. Ficamos amigos... e isso f... foi tudo.
	Ele a pediu em casamento.
	Ele tinha dezessete anos!  Laurie levantou-se, nervosa demais para ficar quieta.  Eu era mais velha... americana... tentei ser gentil, e ele ap... apaixonou-se por mim. Sabia que teria de se casar quando voltasse p... para casa, e me pediu p... porque gostava de mim. P... porque conversvamos e ramos amigos.
Virou-se para ver se ele havia acreditado no que acabara de contar, mas uma ruga profunda marcava sua testa em sinal de dvida. Furiosa, abriu os braos num gesto veemente e disse:
	Ah, v... v... vamos esquecer.
	Repita.
	O qu?
	Repita o que acabou de dizer.
	Disse p... para esquecer.
	Por isso se recusa a falar comigo, no ?
Desesperada, Laurie desviou os olhos dos dele e cravou-os na planta. A primeira camada de ptalas comeava a surgir sob a coroa verde que as sustentava.
	Laurie, olhe para mim! Olhe para mim e responda. Voc  gag, no ?
No tinha coragem para responder. Sem encar-lo, deu alguns passos na direo da flor dos feiticeiros para ter certeza de que realmente via as primeiras ptalas.
	Laurie?  Decidido, Jeff aproximou-se, segurou-a pelos ombros e a fez encar-lo.   isso, no ? Por isso fala de maneira to arrogante, como se estivesse pesando cada palavra antes de pronunci-las. Meu Deus! Disfarou to bem, que eu nem imaginei que pudesse ser gag!
O toque daquelas mos a fazia incendiar. Confusa, afastou-se e foi buscar a mquina fotogrfica para tirar algumas fotos da flor.
	Tudo bem, eu g... gaguejo. Agora j tem com o s... se divertir.
	Por favor! Escute,  fcil ter a impresso errada a seu respeito.
	Por que no diz algo que eu ainda no saiba?  disparou com sarcasmo enquanto fotografava a planta.
	Pensei que fosse a maior esnobe de St. Louis. Por que no me disse?
	Por que n... no digo a n... ningum.
	Ento no pode reclamar quando as pessoas a interpretam mal. Uma garota linda, representante da sociedade local...
	No sou... bonita, e tambm no f... freqento a sociedade. Trabalho para viver, se ainda no p... percebeu.
	Laurie, por favor,'olhe para mim.
	No.
irritado, Remington aproximou-se e a fez virar-se. Delicado, segurou seu queixo entre os dedos e fitou-a nos olhos. Enxugando uma lgrima que corria por seu rosto, respirou fundo para acalmar-se e disse
	Eu nunca tive a inteno de faz-la sofrer. Sabia que havia algum verdadeiro e interessante sobre essa aparncia fria, contida... Por que envergonhar-se?
	No sabe o que significa s... ser diferente.
	Ah, no? Tem idia do que sente um garoto de quatorze anos de idade e quase dois metros de altura? Diferente  ser o nico menino no bairro a no ter um sobrenome italiano e ser filho de pais divorciados. Diferente  passar mais da metade da vida ouvindo as pessoas perguntarem como est o tempo aqui em cima. Eu sei o que  ser diferente, e tenho certeza de que  s isso. Diferente! No  ruim, no  errado, e no  nada do que se deva sentir vergonha!
	Eu... no devia verificar a filmadora?  Laurie perguntou, sentindo que as mos em seus braos ameaavam derreter suas defesas.
	A filmadora est tima. E voc tambm.
	Sentia-se m... mesmo diferente quando estava c... crescendo? Jeff sorriu com melancolia.
	Minha av brigava com os cobradores de nibus porque eles queriam que eu pagasse como adulto. Olhe para ele, dizia. E maior que os meninos de sua idade, mas  s uma criana! Volete 1'indirizzo di un bravo oculista, lei? Quer o endereo de um bom oftalmologista? E como gritava!
Laurie sorriu.
	Quando fui para o ginsio, convidei uma menina para ir ao cinema. Queria impression-la, e ento fui conhecer seus pais e tentei mostrar o melhor de mim. Depois de apertar a mo do pai dela, trombei na gaiola de um passarinho e feri meu nariz. Sabe como impressionar uma garota? Nunca derrame sangue na gaiola de seu periquito!
	Voc no fez isso!  ela riu, apesar do nervoso.
	Ainda tenho a cicatriz  e mostrou o sinal que atravessava seu nariz.  Fiquei to embaraado, que mal pude conversar com ela durante o resto da noite.
	Sei o que sentiu.
	Agora entendo. Foi o que aconteceu com voc e Alexander, no? Ficou embaraada demais para falar com ele.
	No diga que ele ainda se lembra...  murmurou, sentindo o rosto vermelho.
	Acho que ele gostaria de compreender sua atitude, s isso. Alex a admira muito.
	Meu Deus! Vou escrever um bilhete para ele explicando tudo. Que coisa horrvel!
	Acho que est dando mais importncia  histria do que ela realmente merece.
	Alex era um bom rapaz, mas... coisas como essa sempre aconteciam comigo. Meus pais haviam se divorciado, e mame decidiu voltar para c. Acho que nunca fui to inf... infeliz. Ento Alexander me convidou para sair, e de repente tive certeza de que no poderia falar sem gaguejar. Simplesmente sa correndo, e passei semanas me censurando por ter sido to tola. E ele ainda se lembra... Acho que vou mandar um vaso de plantas junto com o bilhete.
	O bilhete  suficiente  Jeff opinou, subitamente enciumado.  Aposto que superou a timidez depois desse incidente. Foi para a faculdade, conheceu o prncipe...
	E voc tambm foi para a universidade e tornou-se um heri do basquete.
	Nunca fui um heri. Sabia que jamais chegaria ao profissional, e pretendia ensinar numa escola qualquer. Mas depois conheci o mundo do vdeo e acabei montando a produtora.
	Comigo foi parecido. Formei-me em desenho, mas sempre adorei f... flores e plantas. Ento decidi combinar as d... duas coisas.
	E assim... aqui estamos ns.
	Sim. Aqui estamos.
Um silncio estranho caiu sobre eles, e Jeff foi o primeiro a romp-lo.
	Fale-me sobre a planta. O diretor do Canal Natural disse que ela s floresce uma vez a cada cem anos. Isso  verdade?
Sorrindo, Laurie aproximou-se da planta e viu que a flor estava quase totalmente aberta.
	A lenda fala em um sculo, mas a botnica afirma que o intervalo  de setenta e cinco anos. J v... vi algumas fotos da flor, e sei que ela  simplesmente m... magnfica. Por isso dizem que  mgica.
	Estou comeando a gostar disso.
	Da flor?
	Do seu jeito de falar?
	No diga isso.
	Por que no?
	Porque est apenas tentando o... consertar o que fez antes.
	No vai me perdoar nunca?
	Sei que  um b... bom homem, mas concordou com uma brincadeira de m... muito mau gosto.
	J disse que foi por um amigo.
	Foi por um carro.
	Meu amigo Gary ama aquele cario! No podia permitir que o perdesse. Escute... Prometo que nunca mais vou apostar coisa nenhuma, est bem? No depois de toda essa confuso.
	Est bem  ela sorriu.  Espero que esteja sendo s... sincero.
	Sabe que sou. Se no fosse honesto e capaz de reconhecer meus erros, teria ido  forra depois daquele anncio no jornal.
	F... forra?
	Voc me embaraou, droga! A primeira coisa em que pensei foi publicar outro anncio dizendo que jamais quis sair com voc, porque no me interessava por esnobes.
	Teria tido coragem?
	No, e esse  o ponto. J havia causado problemas demais. Voc se recusava a aceitar minhas desculpas, e ento conclu que a nica coisa decente a fazer era deix-la em paz. E ainda penso da mesma forma.
Srio, levantou-se e foi verificar a filmadora. A flor estava quase totalmente aberta, e seu trabalho logo estaria concludo. Ento recolheria o equipamento e sairia da vida de Laurentia Chase-Spenser definitivamente. Afinal, havia dito que a deixaria em paz, e ela no protestara.
Sem nada para fazer, comeou a andar pela estufa enquanto assobiava uma antiga cano.
Laurie havia ido sentar-se novamente e, ao ouvi-lo, virou-se e fitou-o com olhos cheios de espanto.
	O que foi? No se deve assobiar numa estufa?
	Essa cano...
	O que h de errado com ela?
	E a Rainha de Connemara.
	Sim, e  minha melodia favorita. -
	Que coincidncia! Tambm  minha p... preferida. Poucas pessoas a... conhecem.
	Faz parte do disco de que mais gosto, um lbum de Makem e Clancy chamado We've Come a Long Way.
	Esse  meu lbum preferido!
Surpreso, Jeff foi sentar-se ao lado dela e comentou:
	Tenho todos os discos deles. Gosta de msica irlandesa? Escocesa?
	Adoro!
	Eu tambm. Quais so seus grupos favoritos?
	Bem... O Silly Wizard.
	So timos.
	O Capercaille.
	 claro.
	O Chieftains.
	Tambm gosto muito.
	E Steeley Span.
	 impressionante! Nunca conheci algum que houvesse sequer ouvido falar nesses grupos!
	Eu sei  Laurie sorriu.  Est dizendo a v... verdade? Ou esse  mais um truque?
	Se no acredita, por que no faz um teste? Cite uma cano de um dos grupos que mencionou. Qualquer uma.
	Hummm... The Loch Tay Boat Song.
Srio, Jeff comeou a cantar a melodia com voz grave e profunda. Laurie o ouvia encantada, inebriada com o som de sua voz e hipnotizada pelo brilho de seus olhos negros. Envolvida, decidiu acompanh-lo e sorriu quando chegaram ao fim da cano.
	E estranho. No gaguejo quando estou cantando.
	Ento devia cantar mais. Conhece Red-haired Mary?
Cantaram mais uma msica e, quando terminaram, a flor havia se aberto mais um pouco.
Jeff levantou para verificar a filmadora e LAurie aproveitou para tirar mais fotos.
	Sabe de uma coisa? Quando soube que teria de fazer esse trabalho, tive medo de dormir antes de complet-lo. Mas essa sua. flor... Valeu a pena passar a noite acordado. Como ela se chama?
	A flor dos feiticeiros  sorriu orgulhosa, voltando para a cadeira e servindo caf em dois copos descartveis.
	Por qu?  Jeff quis saber, sentando-se ao lado dela e acei-' tando um dos copos.  Ela  mgica, ou algo parecido?
	Existem... histrias.
	Que tipo de histrias?
	Apenas... lendas.
	E por que no as conta? Sempre fui pssimo em literatura, mas gosto de ouvir histrias.
	Bem, dizem que a planta tem... poderes.
	Poderes?
	Isso mesmo. As sementes tornam as pessoas mais inteligentes. Mas so to raras, que isso deve ser algum tipo de p... piada. Sabe como ... As sementes so poucas, e por isso no encontramos muitas p... pessoas inteligentes.
	Por isso a chamam de flor dos feiticeiros?
	No  e levantou-se para ir apreci-la de perto.  Certa vez uma princesa jurou que jamais se casaria. E havia um jovem cavaleiro... que a amava. Ento ele procurou um feiticeiro, que lhe deu a p... planta e disse: "Leve para sua amada. Diga que est prestes a florescer, mas que a flor s se abrir se voc estiver a seu lado". E foi o que ele fez.
	E o que aconteceu? Ela descobriu que o amava, apesar do juramento?
	Passaram aquela noite juntos, esperando que a flor se abrisse e... ap... apaixonaram-se.  s uma histria boba.
	E o encanto ainda funciona? A flor ainda  capaz de enfeitiar donzelas relutantes?
Laurie balanou a cabea, envergonhada e nervosa.
	Dizem... que se duas pessoas assistem ao desabrochar da flor
juntas, fatalmente se... apaixonam.
O rudo da cadeira a fez perceber que Jeff havia se levantado, e o som de seus passos indicava que aproximava-se lentamente.
	No acha que  s uma lenda b... boba?
Segurando-a pelos ombros, Jeff sussurrou bem perto de seu ouvido:
	No sei. No estava pensando na histria. Estava lembrando algo que um poeta escreveu em algum lugar.
	Um poeta?
	Isso mesmo. Voc me faz pensar em poesia e noites de luar.
	Eu... no sei do que est falando  Laurie respondeu em voz baixa, incapaz de conter um arrepio.
	Quando a vejo caminhando por entre as flores e plantas, s consigo pensar em poesia e em coisas maravilhosas.
	Eu... O que acha das lendas?  perguntou, tentando mudar de assunto.  No so apenas histrias bobas e sem fundamento?
Em vez de responder, Jeff inclinou-se e beijou seu pescoo como havia feito no dia em que se conheceram.
	Sei como as flores pensam  murmurou.
	O qu?
	Sei como as flores pensam, porque me fez sonhar.
	E o que isso significa?  perguntou, sentindo que os joelhos tremiam e a pele arrepiava-se.
	Significa que as pessoas pensam demais  e virou-a para fit-la nos olhos.  Fazem muitas perguntas, sentem muito medo. Pensamos sobre ns dois, e acabamos descobrindo o que outras pessoas pensavam. E estava tudo errado. Devamos prestar mais ateno ao que sentimos. As flores no pensam, Laurie. Apenas... florescem.
	Eu no... No contei essa histria para fazer voc p... pensar que...
	Eu nem ouvi a histria. Na verdade, deixei-me hipnotizar por sua voz e mergulhei num sonho lindo. Poucas pessoas ainda tm o dom de sonhar na nossa idade, e voc despertou esse dom em mim  e beijou-a. Beijou-a por muito tempo, at que, percebendo uma estranha tenso em seu corpo, ergueu a cabea e murmurou  No se preocupe. Isso tudo no est acontecendo por causa de uma flor supostamente mgica. Est apenas acontecendo. A magia no me assusta... O que me apavora  saber que quase perdemos essa chance.
Laurie fitou-o e soube que estava apaixonada. Apaixonara-se naquele primeiro dia, na igreja, quando havia se virado e encontrado um homem alto, moreno e encantador, ousado o bastante para beijar seu pescoo e pedir permisso para mord-la.
Jeff fitou-a e teve a mesma certeza. Racional, sabia que haviam se encontrado graas a uma imensa cadeia de circunstncias, e no por que uma flor mgica os unira numa noite cheia de perfumes e mistrios.
Os primeiros raios de sol infiltraram-se pelas paredes de vidro da estufa e os dois fitaram-se nos olhos.
No, no era mgica. Era sorte! Muita sorte! E desta vez, no desperdiaria a chance que as circunstncias lhe ofereciam.
	No acredito que essa flor seja mgicadisse.  Mas acredito na magia do amor. Ele nos uniu, e ele nos manter juntos para sempre.
Jeff beijou-a e, ao abra-lo, Laurie sentiu o calor ameno dos raios de sol em seu corpo.
O perfume das plantas tornou-se mais intenso, inebriante e doce como a flor que se abrira para uma nova manh.

FIM
